O que é 7 de setembro além de mais um dia? Nem em 1822 foi tão importante assim, se analisarmos a história friamente. Não houve o fantasioso Grito do Ipiranga que nos livrou das amarras de Portugal. Não houve luta. Não foi derramada uma gota de sangue. Dormimos e acordamos do mesmo jeito. Os impostos só deixaram de ir para o pai e foram para o filho. Então, não, este artigo sobre patriotismo e luta no mundo geek não sairá em 7 de setembro. Porque esse site caótico e subversivo – se quiserem chamar assim – sabe que a verdadeira luta não se dá no calçadão de Copacabana. Ela é diária, crítica e democrática. Onde sabemos que, apesar de tudo, como diz a Carta Magna: Todo poder emana do povo.

“Tia Mah, mas que história é essa de misturar política com o mundo geek?? Pára de estragar minha infância! Mania de ver política em tudo! Deixe meus quadrinhos em paz!”

Deixo não, coleguinha. Sabe por quê? Porque o mundo sempre usou a arte como forma de protesto, de luta. A política não deve ser apenas pauta de jornal porque ela faz parte da nossa vida. Ela transborda em Star Wars, em DUNA. Ela criou O Pasquim. Nos deu O bêbado e o equilibrista. Fez Philip K Dick escrever livros sensacionais. Gerou uma quantidade absurda de filmes, séries e quadrinhos que amamos. Querendo ou não, amigo nerd, ela faz parte do seu dia também.  E isso é bom!

Um povo informado impõe respeito a seus representantes. Já dizia o filósofo Antonio Gramsci que a verdadeira revolução virá da educação. Precisamos falar de política no nosso dia a dia e não através do Whatsapp. Precisamos enxergá-la na arte e discutir sobre ela. Sermos donos do nosso próprio destino. Enxergar a arte de maneira crítica e não apenas como fonte de entretenimento. Olhar o que vários compositores brasileiros faziam para conseguir que suas músicas críticas passassem pela censura durante a Ditadura Militar com admiração. Saber que Alegria, Alegria, de Caetano, não fala sobre um cara passeando sem lenço e sem documento. Isso também é luta. E é mais patriota do que colocar a camisa da seleção e sair na rua em 7 de setembro.

Eu era uma jovem idealista na primeira vez que vi Ziraldo, e me emocionei ao cumprimentá-lo. O Pasquim, tabloide criado pelo cartunista Jaguar e os jornalistas Paulo de Tarso e Sérgio Cabral – o qual Ziraldo acabou por se juntar depois – foi um instrumento importantíssimo durante a ditadura militar. Um grito de liberdade que durou até 1991, com a redemocratização o tornando quase desnecessário. A minha emoção foi porque se posicionar em um momento como aquele é uma questão de coragem. Sempre será. E é por isso que a arte é sempre atacada primeiro. É assim que a Cultura se torna uma secretaria sem importância. É assim que nossos museus são queimados, leis de incentivo à cultura são erroneamente divulgadas, negros importantes são removidos da história da Fundação Palmares.

Os quadrinhos há muito são locais de luta. Quantas vezes não viram o rostinho da nossa “hermanita” Mafalda no meio de algum protesto? A tirinha, criada pelo cartunista Quino em 1963, se tornou símbolo de luta pelos direitos humanos e de rebeldia contra as injustiças de nosso mundo. O brilhante Maus, de Art Spiegelman, vencedor do prêmio Pulitzer, conta a história do nazismo e a perseguição aos judeus da forma mais clara possível, numa tentativa de alertar para que isso jamais aconteça novamente. E nosso amado Alexandre Beck, com seu Armandinho, mostrando as verdades de nosso país sob o olhar de uma criança. Mas, sem nem por um momento, deixar de ser dolorosamente real. A arte sempre grita.

Falar de luta e política no cinema precisaria de um livro, e não um artigo. São tantos que não saberia nem por onde começar. Eles contam o que nossos livros de história não conseguem. Podem ser romanceados, sim, porém falam de pessoas como cada um de nós. Falam de William Wallace, lutando por uma Escócia livre. De Oskar Schindler mostrando que uma pessoa pode fazer a diferença. Falam do povo de Canudos, simples e ignorante, mas que foi forte para lutar contra a recém-instaurada república. De Olga Benário Prestes, provando que a luta não tem gênero. Um exército de um homem – ou mulher – só. Muitas vezes o lado derrotado, mas as ideias continuam. E são importantes. É nossa herança.

Não vamos esquecer das séries! Desde reais como Anos Rebeldes, nos mostrando a luta durante a Ditadura aqui no Brasil, como os manifestos anti-Trump de The Good Fight até as distópicas. Distópicas até o momento, pelo menos. Se pensarmos que The Handmaid’s Tale se baseou no Irã dos anos 70, e que as vezes temos a sensação de que Gilead é aqui, dá para pensar que o limite entre a distopia e a realidade não é tão nítido assim. E não podemos fugir desse mundo como em The Man in the High Castle. A nossa luta é nesse mundo velho, injusto e cada vez mais quente aqui.

“Faz escuro mas eu canto, porque a manhã vai chegar. Vem ver comigo, companheiro, a cor do mundo mudar”. “Faz escuro mas eu canto” é do poeta Thiago de Mello, escrito em 1965, durante a Ditadura. Mas também podia ter sido escrito hoje. Esse é o tema da 34ª Bienal de São Paulo que se iniciou em 4 de setembro, no Ibirapuera, com entrada gratuita. Segundo o site, a mostra “reconhece a urgência dos problemas que desafiam a vida no mundo atual, enquanto reivindica a necessidade da arte como um campo de encontro, resistência, ruptura e transformação”. A cultura grita. A arte grita. E sem berrante. Só precisamos escutar antes que seja tarde.

 

DCzete que adora a Marvel, escritora, melhor amiga de Leia Organa, prima do Superman, moradora de Valfenda e membro da Corvinal. Ok! Talvez alguns deles apenas em sua imaginação. Bernard Cornwell e Neil Gaiman guiam sua vida.

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