Eu tinha uns 11 ou 12 anos quando uma tia me presenteou com essa boina linda de Star Wars. Na época conseguir qualquer artigo geek era praticamente impossível! Só quem tinha dinheiro para mandar trazer dos EUA podia ter algo assim. Enfim, eu ganhei e fui para a escola com ela. Provavelmente levou uns 10 ou 15 minutos até alguém jogá-la na lixeira da escola. Afinal, isso era coisa de criança. Não era normal. Principalmente para uma menina.

Os anos passaram, a Disney comprou o mundo, e, de repente, ser geek virou moda! Todos queriam não só uma linda boina de Star Wars como todo e qualquer produto do tipo. Para onde você olhasse havia camisetas! Filmes eram lançados aos montes! Robert Downey Jr era o Homem de Ferro! Edições lindíssimas (Obrigada, Nossa Senhora do Alan Moore!) de HQs que amávamos surgiam e eram cultuadas. Séries, livros, inúmeros games… Nossa! De um dia para o outro meus bonequinhos eram Action Figures. E todos queriam! Incrível, não? Bem… Não exatamente se você é mulher.

Ser mulher no mundo geek é ter que saber muito mais do que qualquer homem para ser levada a sério. Não é opcional. Se você diz que gosta da Marvel, tem sempre um engraçadinho para dizer “Ah, você gosta do Capitão América porque ele é bonito”. Ou se gosta da DC é por causa do Henry Cavill. E aí você tem que respirar e fazer um comparativo entre quadrinhos e filmes. Falar sobre os diferentes arcos para que, talvez, apenas talvez, eles olhem para você é digam algo diferente de “Você viu a parte do bumbum americano?”. É exasperante!

Como podem perceber pelo início desse artigo, eu amo Star Wars. Eu sei mais que muito marmanjo que estava na fila do cinema em 1977. Sou capaz de fazer um guia do universo canônico de cabeça e muito do expandido também. Digo isso para que imaginem como me sinto quando um marmanjo “Darth Vader é o melhor personagem” vem dizer que estou errada sobre algo do tema. Inclusive uma vez, tempos atrás, um colega, zombando, me pediu para provar que eu era fã dizendo 5 planetas do Universo de Star Wars. Eu disse uns 20. Se eu fosse homem só precisaria estar com a camiseta da saga que me pagariam uma bebida na cantina de Mos Eisley.

Tudo isso irrita, claro. Mas isso não se trata apenas de uma experiência pessoal. O machismo no mundo geek é tão estrutural que qualquer segmento que utilize uma mulher como protagonista já começa com críticas negativas. Antes mesmo de seu lançamento, Battlefield V já colecionava milhares de “Não gostei” em seu trailer de divulgação no Youtube. Precisamente 569 mil no momento que escrevo esse artigo. Tudo porque apresenta personagens mulheres nas batalhas. Usando a hashtag #NotMyBattlefield argumentavam que não havia mulheres na guerra. Nada que uma pequena pesquisa no google não mostrasse estar errado, já que elas tiveram papéis importantes na Segunda Guerra Mundial. E ainda que não tivessem, qual seria o problema? O próprio Produtor Executivo teve que vir a público dizer que eles colocam a diversão à frente da autenticidade. Tudo para parar o chororô.

Esse comportamento machista vem até mesmo dos próprios executivos da indústria de jogos. Há quem diga que a poderosa Activision, por exemplo, chega a influenciar o processo criativo dos desenvolvedores para que não haja mulheres entre os protagonistas. E não é só ela.

Segundo relatos de pessoas que trabalharam no desenvolvimento de Assassin’s Creed Odissey, os desenvolvedores queriam que Kassandra fosse a única personagem jogável. Na época, a equipe de Marketing junto ao chefe criativo da Ubisoft, Serge Hascoët, não permitiu, dizendo que “mulheres não vendem”. E assim fizeram toda a ação de marketing do jogo dando destaque à Alexios, o antagonista da história. Acho que o fato de Serge ter se demitido 10 dias depois da divulgação de processos de assédio sexual envolvendo-o, mostra que ele talvez não fosse a pessoa mais confiável para essa decisão. A propósito? Assassin’s Creed Odyssey é muito melhor quando você joga com Kassandra.

O “Mulheres não vendem” é quase um mantra usado na comunidade geek. E a maior mentira de todas. Hoje em dia, segundo a oitava edição da pesquisa Game Brasil (PGB), as mulheres são maioria entre os gamers, somando 51,5% dos usuários.  Gastam tanto quanto os homens. Um dos filmes mais criticados da Marvel, mesmo antes de sua estreia, Capitã Marvel, rendeu aos cofres do ratinho nada menos do que 1,128 bilhões de dólares. Mulher Maravilha rendeu 822 milhões para a DC. Mulheres vendem. Vendem muito e querem se sentir representadas.

Quando Diana saiu daquela trincheira, em Mulher Maravilha 1, eu chorei. E minha garganta ainda aperta ao lembrar agora. Foi a menina de 11 ou 12 anos que saiu daquela trincheira, carregando a boina de Star Wars. Eu não precisava mais ler escondido as HQs do Superman do meu pai. Eu não precisava mais esconder meus livros de ficção científica para ninguém dizer que eu era esquisita. Mas eu ainda não quero ter que listar planetas para provar algo que eu amo. O homem geek não tem que nos aceitar. Ele tem que nos respeitar e entender que estamos aqui para ficar.

Estamos em 2021 e 59% das mulheres gamers escondem seu gênero para evitar o assédio, segundo uma pesquisa da Lenovo. Podemos jogar, desde que em silêncio, com personagens masculinos para não agredir o frágil ego do “macho nerd”. E a gente só quer jogar. Em 2021!

DCzete que adora a Marvel, escritora, melhor amiga de Leia Organa, prima do Superman, moradora de Valfenda e membro da Corvinal. Ok! Talvez alguns deles apenas em sua imaginação. Bernard Cornwell e Neil Gaiman guiam sua vida.

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