Coringa – Crítica

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Coringa não é um filme fácil de digerir. Com estreia marcada para 3 de outubro deste ano, o novo longa do diretor Todd Phillips (Se Beber, Não Case) entrega um olhar inédito a um dos mais icônicos personagens dos quadrinhos – desta vez, através da genialidade e sofrimento do ator Joaquin Phoenix.

Ambientado no início dos anos 1980, Coringa logo inicia deliberando o caos através de duas vertentes: Gotham, que sofre com greves e alta nos índices de criminalidade, e Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um comediante que acumula trabalhos como palhaço para pagar as contas e cuidar de sua mãe doente (Frances Conroy). Embora não seja novidade ver Gotham em meio aos seus inúmeros conflitos, a personificação e traços humanos do personagem na DC Comics raramente passaram do “agente do caos” ou de um maníaco desumano. Em Coringa, o personagem ganha escopo para sentir, sofrer e se desenvolver. E isso funciona tanto pela narrativa, quanto pela performance excepcional de Joaquin Phoenix.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Ambição, sofrimento e transtornos do protagonista formam o cartel utilizado por Phillips e Phoenix para tornar crível um vilão tão tempestuoso quanto o Coringa, que deixa o patamar caricato conhecido de outras adaptações para emaranhar realidade. Isso reflete ainda na famosa risada do personagem, que também ganha justificativa: ao invés de caminhar pela comicidade, a risada de Fleck surge de um transtorno patológico – é doloroso assistir este Coringa gargalhar. O protagonista luta por espaço em uma sociedade que apenas o vê como um palhaço, mas ele sabe que pode ser mais, e lutará por isso custe o que custar. Mesmo que tal custo seja se entregar à sua psiché distorcida. “Eu pensava que minha vida fosse uma tragédia. Agora me dou conta de que é uma comédia“, indaga o personagem.

Tais transtornos catapultam personagens a acontecimentos cada vez mais pesados ao longo das duas horas de filme. E mais supreendente ainda é como eles também influenciaram a edição e narrativa de Phillips e sua equipe: por mais real que tudo pareça ser, o diretor mostra ao espectador que o grande ponto do filme é a loucura e quebra o que já havia estabelecido para enaltecer a insanidade do protagonista de forma pontual e adequada. É nessa quebra que Coringa surpreende ainda mais o espectador, que pode perceber em certo momento que dividiu a insanidade com o protagonista.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

A narrativa muito bem construída é apoiada por influências cinematográficas consolidadas, principalmente quando o assunto é Martin Scorsese. É fácil enxergar as influencias que deram vida ao longa de Phillips – de Taxi Driver a Rei da Comédia. E isso não vem somente da presença de Robert De Niro, presente também em Coringa. Cenas mais introspectivas de Joaquin Phoenix são sempre bizarras e marcantes, também denotando suas aflições e projeções em um futuro ilusório. Phoenix se entregou totalmente ao papel.

As influências também são vistas na paleta de cores quente e uma trilha sonora sempre pronta para acentuar não só referências, mas a instabilidade emocional do protagonista. Todos os aspectos técnicos se alinham à trama e intencificam a experiência cinematográfica que Coringa tem a oferecer. Não se trata de uma adaptação de quadrinhos: é uma obra original única que funciona perfeitamente por si só.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Instável, Arthur Fleck ainda oferece tempo para que outros personagens intencifiquem seus sentimentos e aflições – casos de Sophie Dumond (Zazie Beetz), Murray Franklin (Robert De Niro), Thomas Wayne (Brett Cullen), sua mãe, Penny Fleck (Frances Conroy), e colegas de trabalho. Cada um acentua uma característica do protagonista, seja empatia, amor, sonhos e até reconhecimento. É preciso notar que, embora o personagem de Phoenix seja o ponto central do longa, todos que estão ao seu redor enfatizam um fator crucial da personalidade do protagonista, que nunca para de definhar.

Também é fácil salientar que Todd Phillips e o co-roteirista Scott Silver não se prenderam em conexões com quadrinhos ou quaisquer outros filmes sobre o vilão – e, por tanto, o Batman. Sim, há algumas referências – principalmente visuais -, mas o grande ponto de Coringa é sua própria originalidade. Fãs mais assíduos conseguirão encontra-las, mas não é isso que resulta em um filme excelente. O grande acerto do longa é tudo que faz sua roda girar: narrativa, cinematografia, trilha sonora e, principalmente, a atuação de Phoenix. Por mais que a necessidade inicial de comparar sua performance com as de outros atores que já viveram o personagem nas telonas apareça, o decorrer narrativo quebra tal desejo quando percebemos que Joaquin Phoenix conseguiu algo único em sua atuação graças as escolhas dramáticas dos envolvidos – e, obviamente, sua própria performance frente às câmeras.

Divulgação/Warner Bros. Pictures

Coringa entrega um fenômeno visual, narrativo e performático ao contar a origem de um dos mais icônicos personagens dos quadrinhos de forma magnífica e original. Mesmo com ritmo lento, tudo que envolve as duas horas do longa geram a necessidade de manter os olhos vidrados nas telonas. Joaquin Phoenix certamente foi a escolha perfeita para viver o vilão, que cresce constantemente e se torna um novo marco na história do personagem nos cinemas.

Todd Phillips também merece créditos, tanto pela co-produção do roteiro quanto pela direção. Mesmo com o caos que chove sobre o personagem, o longa consegue ser belo em momentos introspectivos com ângulos de câmera mais fechados e a temática oitentista. Coringa não é um filme fácil de digerir, mas quando – e se – digerido, não para de agradar. Uma obra original que inaugura o novo celo da DC nos cinemas de forma esplendorosa.

Coringa chega aos cinemas brasileiros em 3 de outubro deste ano.

100%
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Excelente

Coringa (2019)
(Joker)
País: EUA | Classificação: 16 anos | Estreia: 3 de outubro de 2019
Direção: Todd Phillips | Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver
Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Marc Maron, Brett Cullen

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Cofundador e editor-chefe do Duas Torres. Fascinado pela narrativa de J. R. R. Tolkien e pela evolução do entretenimento, encontra paz ao escrever sobre filmes, séries e games.

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