Era Uma Vez Em… Hollywood – Crítica

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Ao longo de sua carreira, Quentin Tarantino estabeleceu sua própria fórmula cinematográfica para contar suas histórias e arrastar audiências às salas de cinema: violência extrema, personagens muito bem construídos, quebra na linha temporal ao transitar entre passado e presente, por exemplo, são os mais frequentes em seus filmes. Era Uma Vez Em… Hollywood, seu novo projeto que chega aos cinemas em 15 de agosto, não esquece tal fórmula, mas é ao misturar fantasia, uma tragédia real e humanização de personagens que o filme acentua a maturidade e trejeitos da genialidade do diretor.

É o verão de 1969, em Los Angeles, que o diretor escolhe como palco de sua nova história. Centrado em três personagens cruciais, Era Uma Vez Em… Hollywood caminha entre as vidas de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), Cliff Booth (Brad Pitt) e Sharon Tate (Margot Robbie) em uma indústria que possui diferentes virtudes e maldições. As três vidas vivem de formas distintas em suas carreiras e se transformam frente às telas de forma constante e crescente.

Dalton é um ator conhecido por papéis importantes em filmes e séries de bangue-bangue que se vê em crise ao acreditar que seu tempo de estrelato acabou. O personagem interpretado por DiCaprio é a fundação da história, sustentando praticamente todos os acontecimentos principais da trama – e a performance do ator é, novamente, estrondosa. Os momentos mais perturbados do ator conseguem não só emocionar, mas divertir através de tons melancólicos – seja a revolta após erros em gravações ou ao questionar seu próprio histórico profissional. Nas cenas de maior tensão, o ator se eleva e entrega um humor ilariante que certamente fará audiências cairem em gargalhada.

Já Booth, de Brad Pitt, entende que sua função como dublê de Dalton também chega ao fim e, para sobreviver, ajuda o amigo em funções mais simple:s arrumar antenas, dirigir e cuidar da casa de Dalton, por exemplo. Diferente do amigo, Booth é mais neutro e menos resiliente, mas não menos divertido. É na sinergia com DiCaprio e trejeitos descolados que Pitt segue sua performance ao longo do filme, já que seu personagem pouco conquista em questões narrativas. Por fim, Sharon Tate, de Margot Robbie, é a estrela em ascenção de Hollywood. Recém casada com o diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha), a atriz se muda para a casa ao lado de Dalton e é a nova queridinha da cena. A personagem é o total oposto dos outros dois personagens e mergulha na máxima do amor pelo cinema e pela própria cidade de Los Angeles.

A tríade, ao lado da direção, carregam os principais eventos do filme de forma leve e fácil. Mesmo com tamanha distinção entre personagens, as performances dos atores se juntam à cinematografia de Tarantino de forma crucial ao narrar os acontecimentos divertidos, emocionantes e especiais.

Reprodução/Sony Pictures

Era Uma Vez Em… Hollywood celebra, no dito palco, uma história sobre cinema, relacionamentos, carreiras, inclusão e sonhos. Los Angeles vivia o ápice do “paz e amor” hippie e a construção destes sonhos, o que culminava em novas comunidades e a busca por um espaço na indústria cinematográfica – enquanto Dalton e Booth vivem uma tormenta, Tate encara seu novo lugar no mundo com brilho e êxtase.

No entanto, o novo lugar no mundo não é tão brilhante assim. As mudanças no cenário da cidade resultaram no surgimento e ascençao de Charles Manson, uma das figuras mais sombrias da humanidade e que liderou o grupo de jovens que assassinou Sharon Tate e amigos em agosto de 1969. De forma pessoal, Tarantino aborda o tema com cautela e extrema construção ao longo de três horas de duração. O real e ficção se convergem através de personagens marcantes em uma das histórias mais brilhantes de Tarantino. Sua assinatura é deliberadamente perceptível através de recursos cinematográficos que marcaram sua trajetória em Hollywood, mas a questão pessoal ao abordar tal tema transforma o longa em um de seus filmes mais humanos – menos violência gratuita e mais sentimentos. Há espaço para abordar não só a cena da época, mas também os demônios interiores do protagonista e a dificuldade de se estabelecer e permanecer meio ao paraíso.

Reprodução/Sony Pictures

Era Uma Vez Em… Hollywood é o conto pessoal de Tarantino sobre a trágica Hollywood dos anos 60, que construiu e destruiu sonhos, vidas e histórias. O diretor dá espaço ao riso frouxo, diversão e entretenimento sem se esquecer sobre o que se refere: a paixão pelo cinema. Em um de seus melhores trabalhos até hoje, Tarantino “brinca” com o culto sagrado das estrelas de Hollywood ao reconstruir uma catástrofe marcante de forma lenta, mas fulminante. Assim como o diretor, o trio de atores desempenham papéis cruciais e estontiantes no longa, cada qual com performances únicas e marcantes em uma obra lenta, mas espetacular.

Com estreia marcada para 15 de agosto, Era Uma Vez Em… Hollywood nos mostra que é possível encontrar um final feliz meio ao caos – mesmo que através de um conto de fadas.

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Excelente

Era Uma Vez Em... Hollywood (2019)
(Once Upon a Time In... Hollywood)
País: EUA | Classificação: 16 anos | Estreia: 15 de agosto de 2019
Direção: Quentin Tarantino | Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Leonardo DiCaprio, Margot Robbie, Brad Pitt, Al Pacino, Kurt Russell, Dakota Fanning, Luke Perry, Emile Hirsch

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Cofundador e editor-chefe do Duas Torres. Fascinado pela narrativa de J. R. R. Tolkien e pela evolução do entretenimento, encontra paz ao escrever sobre filmes, séries e games.

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