Good Omens – Crítica

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Pouco antes de seu falecimento, em 2015, o escritor britânico Terry Pratchett escreveu um bilhete para Neil Gaiman. Ambos haviam co-escrito, em 1990, o livro Good Omens (Belas Maldições, em português) e há muito queriam transformá-lo em uma série ou filme. Neste último pedido, Pratchett escreveu: “Eu sei como você é ocupado, mas não há ninguém com a paixão e entendimento que eu e você temos. E eu não posso fazê-lo. Então você precisa fazer porque eu quero ver”.

Dois dias depois do funeral de seu amigo, Gaiman sentou-se para escrever o primeiro episódio do que viria a ser a série com um único propósito: Deixar Pratchett orgulhoso. No último dia 30, Good Omens estreou na plataforma da Amazon Prime Video e já podemos dizer, com certeza, que Gaiman fez seu velho amigo muito feliz. A minissérie protagonizada por David Tennant (Doctor Who) e Michael Sheen (Masters of Sex) é composta de 6 episódios de pouco mais de 50 minutos completamente fiéis ao livro.

Good Omens conta a história do anjo Aziraphale (Sheen) e do demônio Crawley/Crowley (Tennant) que, vivendo na Terra desde o início dos tempos, se afeiçoaram aos humanos e à vida terrestre. Um dia, eles recebem de seus superiores o aviso de que o anticristo iria nascer e o Apocalipse se aproximaria. Tudo estava se encaminhando para o fim dos tempos, se não ocorresse uma troca de bebês no nascimento. O anticristo, que deveria nascer filho de um diplomata americano, acaba por ir parar em uma família comum do interior da Inglaterra. Crowley e Aziraphale, tentando impedir O Grande Plano, tornam-se tutores do menino errado. Cada um mostrando o lado bom e o mau, querendo que o anticristo se torne um humano equilibrado. Até que descobrem que estão treinando a criança errada.

Se posso escolher o que mais gostei na série foram as interpretações de Sheen e Tennant. O “Bromance” de anjo e demônio, hora se ajudando, hora se atrapalhando é delicioso! Bregas e exagerados na medida que a história pede, não há como não se afeiçoar a eles também. A química é tão perfeita que as cenas em que eles aparecem são com certeza as melhores, como quando eles passeiam pela história da humanidade, mostrando sua influência em cada momento.

De fato, acho que a escolha de todo o elenco está perfeita! O núcleo das crianças tem uma pitada de Goonies ou Conta Comigo. O anticristo Adam Young (Sam Taylor Buck) é adorável e todos queríamos amigos como Pepper (Amma Ris), Brian (Ilan Galkoff) e Wensleydale (Alfie Taylor). A única crítica negativa é pelo grupo não ter tempo suficiente de tela para nos causar a afeição que temos por eles no livro. As crianças poderiam ter sido melhor aproveitadas.

Usando a crença de que anjos (ou demônios) não tem sexo, por que não colocar o Arcanjo Michael (Doon Mackichan) ou Belzebu (Anna Maxwell Martin) como mulheres? Gaiman o fez e foi perfeito! E por que não incutir uma crítica aos americanos colocando John Hamm em excelente forma como o narcisista Arcanjo Gabriel? Aliás, a crítica velada à sociedade americana está em vários momentos ao longo da série, como na escolha do local da batalha final.

A crítica à sociedade, o humor negro britânico, repleto de piadas com si mesmo é irretocável para quem gosta do gênero.  Tanto o roteiro de Neil Gaiman quanto a direção de Douglas Mackinnon estão absurdamente perfeitos! E para quem leu o livro, ver na tela vários dos diálogos que amamos foi incrível. Houve algumas mudanças para que a história fluísse melhor e funcionasse na TV, mas nenhuma atrapalhou a experiência. Pelo contrário! Não se pode dizer que há qualquer erro no roteiro. Ele foi feito – sem correr perigo – para agradar.

Good Omens tira sarro de convenções bíblicas, como Crowley dizendo que determinado ato de Deus parece coisa do seu lado. O céu parece um prédio envidraçado, muito limpo e arrumado, com anjos vestidos de maneira impecável, sem um fio de cabelo fora do lugar. O inferno mais parece uma grande bagunça suja e desorganizada. Todos os demônios parecem iguais (e alguns até são), cheios de chagas e pestilentos, parecendo uma crítica ao trabalhador médio britânico. Tudo na série é exagerado, brega, mas no bom sentido. Nada incomoda.

Outra parte hilariante da série vem do livro “As justas e precisas profecias de Agnes Nutter”, escrito pela última bruxa a ser queimada na fogueira na Inglaterra. As profecias, guardadas pela sua descendente Anathema Device (Adria Arjona) são realmente muito precisas. Como, por exemplo, ao mandar suas descendentes investirem na Apple ou avisando as pessoas para não comprarem Betamax. Até mesmo ao unir Anathema ao descendente do caçador de bruxas que a capturou, Newton Pulsifer (Jack Whitehall). Com essas profecias, o fim do mundo nunca foi tão divertido.

Você gostaria de morar em um mundo onde Frances McDormand fosse Deus e Bennedict Cumberbatch o Diabo? Bem, depois de Omens é tudo o que eu queria. A narração da voz de Deus feita ao longo da série por Frances é literalmente divina! Ela te conduz na história com perfeição. E Cumberbatch com seu vozeirão faz uma participação curta, mas memorável!

Eu sou uma das pessoas que estava com a expectativa muito alta em relação a essa série. Primeiro porque Neil Gaiman é meu autor preferido. Segundo porque amo a história e ela merecia uma adaptação. Termino a primeira (?) temporada mais do que satisfeita. Espero que Terry Pratchett esteja olhando aqui pra baixo, com Aziraphale e Crowley ao seu lado, bebendo algumas garrafas e vinho e sorrindo. Porque Gaiman cumpriu o prometido.

90%
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Awesome

Good Omens(2019)
País: Reino Unido | Classificação: 16 anos | Estreia: 30 de maio de 2019
Direção: Douglas MacKinnon | Roteiro: Neil Gaiman
Elenco: David Tennant, Michael Sheen, Frances McDormand, Bennedict Cumberbatch, Sam Taylor Buck, John Hamm, Amma Ris, Jack Whitehall, Michael McKean, Miranda Richardson, Alfie Taylor, Ilan Galkoff, Adria Arjona

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DCzete que adora a Marvel, escritora, melhor amiga de Leia Organa, prima do Superman, moradora de Valfenda e membro da Corvinal. Ok! Talvez alguns deles, apenas em sua imaginação. Bernard Cornwell e Neil Gaiman guiam sua vida.

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