Rocketman – Crítica

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Embora ostentem vidas grandiosas diante dos olhos do público, alguns artistas guardam questões inimagináveis em suas vidas pessoais. É nos bastidores da fama que residem seus traumas e dificuldades, que nem sempre vem à tona para conhecimento geral. Elton John é um dos artistas cuja vida fora dos palcos é carregada de fortes dramas pessoais. Conhecido por suas belas canções e sua extravagância, o cantor, compositor e pianista tem sua história contada ao grande público na obra Rocketman, que chama atenção justamente por optar por um viés mais intimista para narrar sua trajetória, colocando o espectador frente a frente com um Elton nunca visto antes.

Em seus 121 minutos, o diretor Dexter Fletcher – curiosamente, o responsável por finalizar as filmagens do irregular Bohemian Rhapsody – sobrepõe gêneros para criar uma obra que consiga traduzir visualmente os excessos de Elton, cuja história pode ser qualquer coisa exceto ordinária. Sua cinebiografia, portanto, não poderia ser diferente e Fletcher faz jus à ela ao criar um legítimo musical – os personagens se expressam através das famosas canções do músico –, onde o drama por vezes é mesclado a elementos surrealistas, algo que funciona perfeitamente por quase todo o filme e geram momentos icônicos, como a sequência de Crocodile Rock.

Não é de se esperar algo diferente, visto que o verdadeiro Elton John assina como produtor-executivo. Assim, logo em sua cena inicial, Rocketman abre espaço para que o músico – vivido por Taron Egerton – literalmente conte sua história. Desta forma, momentos como o início da parceria com Bernie Taupin (Jamie Bell) ganham contornos mais poéticos, ao passo que outros, como os que retratam sua infância ou a relação com seus pais, são dotados de maior dramaticidade. Tudo feito de forma tocante e bastante honesta, além de precisa, criando um equilíbrio saudável entre o drama intimista e o musical fantasioso ao estilo Broadway.

Em ambos os extremos, a grande constante é a brilhante atuação de Egerton. O ator entrega seu melhor trabalho até aqui e se encaixa perfeitamente no papel. Seja no olhar carregado de sentimentos, seja na poderosa voz ao entoar canções como Your Song e Tiny Dancer – esta sendo uma das melhores performances musicais do ator –, é assustador vê-lo desaparecer no papel. Além da voz, a semelhança física que surge entre ambos em algumas cenas faz o espectador duvidar – por alguns segundos que seja – se houve algum uso de imagens de arquivo ou mesmo computação gráfica para que Taron Egerton se tornasse Elton John.

O design de produção e a fotografia de George Richmond (Kingsman: Serviço Secreto) elevam o visual, principalmente nas sequências musicais. Seria injusto esquecer de mencionar o ótimo trabalho de coreografia e principalmente figurino, que trata de reproduzir alguns dos visuais peculiares do músico. Já o roteiro carece de maior profundidade para com personagens secundários e sofre com a ausência de uma sequência musical grandiosa em seu fechamento. Como sua proposta se volta para um lado mais pessoal, o clímax é sobre Elton John em seu íntimo, fora dos palcos. O resultado é um tanto piegas, mas não compromete o conjunto da obra.

Destacando-se de outras obras biográficas, Rocketman funciona não só pela força de sua história, como pela sua abordagem, que mescla elementos de tantos gêneros, sendo uma obra que poderia facilmente estrear na Broadway. Abordar a trajetória de uma figura tão interessante quando Elton John poderia dar incrivelmente errado, mas o filme de Dexter Fletcher não apenas faz jus ao artista – e para este, é também a oportunidade absoluta de fazer as pazes consigo mesmo –, como funciona em níveis diferentes para o espectador. O resultado não é irretocável, mas faz com que seja impossível sair do cinema sem querer saber mais sobre a vida e a obra do músico, e claro, com as canções – agora na voz de Taron Egerton – ecoando na memória. Não é esta, afinal, a razão mor de uma biografia?

Avaliação Final

80%
80%
Muito Bom

Rocketman (2019)
(Rocketman)
País: EUA | Classificação: 14 anos | Estreia: 30 de maio de 2019
Direção: Dexter Fletcher | Roteiro: Lee Hall
Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Steven Mackintosh, Charlie Rowe

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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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