Days Gone – Review

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O gênero de mortos-vivos é uma máxima em qualquer mídia de entretenimento: quadrinhos, televisão, cinema e, claro, videogames. Constantes obras inundam indústrias ano após ano, mas tamanha saturação consegue, vez ou outra, renovar espíritos dos fãs com produções inovadoras. Days Gone, game desenvolvido exclusivamente para PlayStation 4 pela Bend Studio, não foca, no entanto, em inovações, mas consegue usufruir de conceitos previamente conhecidos por jogadores para afoga-los em uma mistura de emoções frenéticas a todo instante em um mundo vivo que se destaca desde o começo.

Iniciar a jogatina de Days Gone com expectativas altas é um balde de água morna. A começar pela história do protagonista Deacon St. John, um motoqueiro sobrevivente no mundo pós-apocalíptico que viu sua amada Sarah desaparecer após um surto transformar humanos em Freakers, uma espécie de zumbi. O game da Bend trata de apresentar o personagem como uma alma solitária que possui um objetivo principal no mundo em que está inserido: sobreviver em meio as ruínas de paisagens e ambientes destruídos dois anos após a infestação. Os diálogos do game, que apresentam as missões e outros personagens aos jogadores, de cara servem como a ponte entre o passado e presente do protagonista, mas nada de forma muito exuberante – infelizmente. É comum se deparar com falas medianas ao longo do jogo, principalmente em missões secundárias – que tanto amo enfrentar em games de RPG e ação.

Reprodução/Bend Studio

Bem-vindo ao Apocalipse

A cerne motoqueira de Deacon segue mesmo após o apocalipse e é uma das cartas na manga da Bend que diferencia Days Gone. O veículo do protagonista te coloca nas mais diversas paisagens e cidades do game e facilita a transição pelo belo e vasto mapa – montanhas, vilas abandonadas, acampamentos e até florestas. Customizar o visual da moto dá um charme em meio ao apocalipse, mas alterar peças para aumentar sua velocidade e durabilidade são uma mão na roda na tensa aventura. Falarei sobre estratégias de combate a seguir, mas já tenha em mente que poucos jogos acertam tanto quanto Days Gone quando falamos sobre veículos que ajudam tanto para atacar quanto para se defender de inimigos.

Viajar pelos cenários pós-apocalípticos geram duas sensações extremamente frequentes em Days Gone: a tensão e a calma. Pilotar a moto entre missões localizadas em regiões distantes é acompanhada de recursos que quebram a monotonia e enfatizam a irônica tranquilidade do jogo – uma consequência da tensão é a calma. Pilotando a moto, Deacon conversa com seu amigo Boozer, que está em outro lugar, enquanto uma estação de rádio de Oregon dá notícias e detalhes sobre a infestação. No entanto, dirigir meio aos Freakers não é nada fácil: os zumbis vagam sem rumo em todos os ambientes do jogo, então não se assuste caso atropele alguns pelo caminho – principalmente à noite, quando os zumbis saem aos montes. As criaturas sanguinárias sempre seguirão os jogadores com um único propósito: matá-los. E deixe-me te contar uma coisa… Elas irão te matar várias vezes. O caminho mais fácil para reduzir encontros súbitos com as criaturas é destruir seus ninhos em uma das missões secundárias do jogo, que diminuem a quantidade de Freakers nas ruas e estradas, mas não a ponto de fazer uma diferença gritante. Além dos Freakers, o game conta com outros inimigos, como bandidos, animais selvagens e os Rippers, um culto formado por humanos que idolatram os infectados.

O caminho mais fácil para reduzir encontros súbitos com as criaturas é destruir seus ninhos em uma das missões secundárias do jogo, que diminuem a quantidade de Freakers nas ruas e estradas, mas não a ponto de fazer uma diferença gritante. Além dos Freakers, o game conta com outros inimigos, como bandidos, animais selvagens e os Rippers, um culto formado por humanos que idolatram os infectados.

Mecanicamente, a Bend preferiu escapar de inovações em Days Gone, que disponibiliza botões para mirar, atirar, correr, pular e atacar corpo a corpo da mesma forma que outros games de ação – um acerto que impede confusões em meio à jogatina. A própria aba para escolha de armas e itens segue padrões do gênero, o que facilita a vida dos jogadores familiarizados com outros títulos da indústria – o mesmo vale para a movimentação nos cenários, seja para correr, agachar ou pular. A árvore de habilidades também não é um mistério e segue padrões exatos já conhecidos, como melhorar combate corpo a corpo e regenerar o fôlego do protagonista ao abater inimigos, por exemplo. Para se ter noção da mesmice dita, a desenvolvedora implementou sistema de foco exatamente igual a de The Witcher, da CD Projekt RED: em busca de pistas nos cenários do jogo, Deacon se concentra e a tela refaz caminhos e simula ações passadas de outros personagens ao melhor estilo Geralt de Rivia. Pegadas nas florestas são salientadas pelas cores que indicam qual caminho seguir – já vi isso antes.

Outro ponto determinante, e que quebra a dinâmica do título, são as cutscenes: sempre, sempre mesmo, que uma cena cinemática é acionada ou finalizada, a tela escurece (o famoso Fade-Out) de forma brusca e nada “orgânica” – diferente de God of War, também exclusivo para PlayStation 4, que mescla transições entre gameplay e cinemáticas com maestria; saiba mais. O artifício utilizado pelo estúdio quebra toda a dramaticidade narrativa e lúdica do título, mas é salva por um fator crucial na jornada de Deacon: a tensão em sobreviver. Entrarei neste ponto nos parágrafos seguintes.

Reprodução/Bend Studio

Sobreviva ou morra tentando

Sobrevivência é o grande x da questão em Days Gone. Para tal, é preciso seguir diversos padrões muito simples e bem definidos: ambulâncias disponibilizam curativos; carros de polícia fornecem munição e caminhões de bombeiros sempre contam com um machado afiado para embates corpo a corpo contra os Freakers e outras ameaças. Uma boa mira ajuda, saber a hora de correr também.

O progresso do game implementa mais opções aos jogadores aos poucos, como por exemplo a descoberta de acampamentos, que também disponibilizam missões e recursos, assim como Pontos de Controle da N.E.R.O., uma agência do governo norte-americano que responde a desastres e outras situações emergenciais. Os pontos oferecem injeções a Deacon que aumentam a saúde, energia e foco do protagonista – atributos essenciais para sobreviver no game. Além disso, os pontos de controle também ajudam a coletar itens e disponibilizam camas para que o personagem durma – algo que nunca recupera a barra de vida, mas serve para avançar a linha temporal do game e evitar as ruas à noite, sempre infestadas pelos seres frenéticos.

Ao lado do foco sobrevivente do gameplay está a narrativa, que é feita através de duas perspectivas: o passado de Deacon e as necessidades de acampamentos aliados. O passado centrado no relacionamento entre protagonista e Sarah visa preencher lacunas traumáticas, enquanto os acampamentos buscam preencher o vazio existencial e a necessidade do protagonista em, obviamente, sobreviver. No entanto, ambas colidem em mistérios e necessidades ao colocar dúvidas quanto às crenças de Deacon, o tornando o jogo uma montanha-russa narrativa bem insossa. Há muita confusão na forma como a história é contada, ainda mais pelas fracas linhas de diálogos e missões principais que não resultam em acontecimentos marcantes. A vida de Deacon caminha em linhas tortuosas narrativamente, mas a ação está sempre presente para tirar jogadores da monotonia narrativa.

As fracas resoluções na vida do protagonista são salvas graças à existência das ameaças em Days Gone. Freakers, animais selvagens, bandidos e Rippers se tornam, de forma paradoxal, os mocinhos do game. Enquanto a história é fraca, a jogabilidade e seus recursos, além do próprio mundo mutante, se tornam a grande chave para continuar seguindo a jornada imposta pelo título.

Reprodução/Bend Studio

Tentativa e Erro

Em evento realizado em São Paulo, o diretor Jeff Ross e o lead game designer Ron Allen foram diretos ao afirmar que o sistema de hordas dos Freakers é o grande diferencial de Days Gone – e eles não estavam errados. Há dois tipos de hordas: uma com 300 inimigos e outra com 500. É ao enfrenta-las que jogadores sentirão as maiores dificuldades do mundo do game, já que precisam adotar três estilos diferentes de abordagem para eliminar as hordas massivas de inimigos. A antecipação criada até o primeiro confronto com a horda é o melhor resultado da fraca narrativa, que acerta em cheio ao falar pouco a pouco sobre gigantescas massas de Frenéticos. Obter êxito ao enfrenta-las se torna, pouco a pouco, o maior desafio e a maior recompensa de Days Gone.

Tentativa e erro me mostraram que a ação frenética do game converge em atirar e correr, planejar ataques ou simplesmente fugir – principalmente quando enfrentamos hordas de Freakers. Graças à mecânica simples, as três estratégias funcionam de forma harmoniosa, sendo fácil executa-las e até combina-las. O mais comum, pelo que percebi, é de fato planejar o ataque, atirar e, finalmente, atirar enquanto corre – fugir também faz parte do desafio e a moto de Deacon é a grande salvação nestes momentos. O processo de sobrevivência no mundo de Days Gone, portanto, se torna repetitivo, já que sempre fazemos as mesmas coisas para seguir em frente, mas mesclar as estratégias de combate é uma solução para escapar de tais repetições.

Encontrar ambulâncias e carros de polícia resultam em itens de sobrevivência e munição; encontrar hordas de Freakers resultam em ação que intercalam as estratégias mencionadas; tudo é sempre a mesma coisa. A necessidade de sobrevivência também é exigida quando falamos sobre bugs – o game estava, até atualizações serem lançadas, repleta deles. Por diversas vezes agachar em arbustos em busca de furtividade e mover a câmera para ganhar novos pontos de visão faziam com que muitos Freakers simplesmente brotassem na tela, resultando na morte iminente de Deacon. Quedas na taxa de quadros, principalmente ao pilotar a moto, causam outra quebra de imersão. Graças às atualizações da Bend, os erros foram corrigidos – mas não antes da internet reclamar.

No final, a melhor coisa que o game tem a oferecer, além da tensão que impõe aos jogadores quando o assunto é sobrevivência, é um mundo aberto dinâmico e mutável. Este sim se mostra como um colosso acerto de Days Gone.

Reprodução/Bend Studio

O Mundo Vivo de Days Gone

Mecânicas simples ajudam jogadores nos momentos tensos e frenéticos do game. Já os acontecimentos narrativos conturbadas desde o início e diálogos fracos não resultam em conexões mais interessantes com o protagonista e história do jogo. No entanto, é o mundo de Days Gone que mais se destaca durante horas e horas de jogatina.

A tensão ambiental imposta pela Bend funciona de forma primordial e me causou ansiedade incontáveis vezes. Vagar lentamente por túneis abandonados infestados de Freakers é sempre acompanhado de uma trilha sonora de arrepiar até os mais bravos, o que me deixava sempre ansioso para sair rapidamente – uma tática que funcionou em algumas situações, mas nem sempre, já que os túneis também contam com obstáculos como veículos e entulhos.

Viajar pelas estradadas do mundo aberto de Days Gone durante o dia traz paz e calma através da bela iluminação e cenários das cidades de Oregon, nos Estados Unidos. As florestas são um reflexo da ausência humana e são repletas de vida: animais, flores, árvores e ervas estão presentes aos montes. Quando a noite chega, no entanto, toda a beleza parece ruir frente aos olhos dos jogadores.

Poucas horas de jogo servem para ensinar algo fundamental aos jogadores: a noite é sempre acompanhada de Freakers. Me recordo de uma missão no topo de uma montanha, na qual era preciso resgatar um membro de um acampamento. Tudo caminhou bem, até que a noite chegou. Enquanto caminhava em direção à moto de Deacon, notei uma mancha no canto da tela: era uma horda de Freakers. A tensão me engoliu instantaneamente e fiquei escondido até que se distanciassem, já que estava com pouca munição e longe da motocicleta – saiba quando evitar conflitos e sobreviva.

É o ambiente vivo e dinâmico de Days Gone que acerta na sua proposta de jogo de ação e sobrevivência. Enquanto as mecânicas sempre se mantém repetitivas, as mudanças procedurais do mundo do game trazem sempre algo de diferente nas partidas. As vilas e cidades destruídas do jogo dão um charme característico aos cenários pós-apocalípticos, assim como as estradas repletas de carros abandonados, que contam a história do surto visualmente e sem “falar” uma palavra sequer.

Há muito a se fazer em Oregon. Além das missões e confrontos contra inimigos, Days Gone oferece um vasto leque de opções que surgem repentinamente no mapa, como ajudar sobreviventes sob ataque, enfrentar bandidos em seus acampamentos, seguir os militares da N.E.R.O. e destruir as hordas de Freakers. Os desenvolvedores não mentiram quando disseram que Days Gone oferece até 60 horas de gameplay. No entanto, tantas repetições mecânicas e as falhas narrativas podem não gerar a necessidade para finalizar todos os pontos abertos do jogo.

Reprodução/GLITCHED

Days Gone resulta em um bom jogo de sobrevivência graças às suas pouquíssimas propostas inovadoras, mas peca por uma história sem graça e repetições. No final, o que o game da Bend Studio, também responsável pelo saudoso Syphon Filter, melhor tem a oferecer é um mundo aberto repleto de oportunidades. Confrontos inesperados com inimigos ou simplesmente vagar pelos cenários do apocalipse são o grande acerto de um jogo tenso a cada curva.

As únicas inovações do game são, de fato, o sistema de hordas de cair o queixo e a forma como os ambientes implementam tensão aos jogadores. As mecânicas simples e previamente estabelecidas por outros títulos do gênero ajudam nas jogatinas, mas resultam em constantes repetições de padrões a todo momento. O game exclusivo para PlayStation 4 sobrevive a passos bem curtos.

60%
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Bom

Desenvolvedor: SIE Bend Studio
Publisher: Sony Interactive Entertainment
Plataformas: Playstation 4
Data de Lançamento: 26 de abril de 2019

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About Author

Cofundador e editor-chefe do Duas Torres. Fascinado pela narrativa de J. R. R. Tolkien e pela evolução do entretenimento, encontra paz ao escrever sobre filmes, séries e games.

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