Vidro – Crítica

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M. Night Shyamalan é um diretor controverso. Um ano após ganhar a atenção do público em 1999 com o O Sexto Sentido, lançou nos cinemas Corpo Fechado, uma reimaginação realista das histórias de super-heróis. Apesar da linguagem e temática bem diferentes do anterior, o filme consolidou a preferência do diretor por suspenses com finais surpreendentes, algo que viria a se tornar sua marca registrada. Ainda assim, sem expectativa de recriar o sucesso anterior, Shyamalan fez com que o filme tivesse um final sem ganchos e somente em 2016, se permitiu revisitar tal mitologia com Fragmentado, ligando ambos os filmes – ainda que apenas – em sua cena final. Assim, 19 anos após Corpo Fechado, Vidro (Glass) chega aos cinemas, encerrando a trilogia de heróis realistas de Shyamalan.

Convergindo as tramas de Corpo Fechado e Fragmentado, Shyamalan reintroduz o herói David Dunn (Bruce Willis) em sua busca por Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), o sequestrador conhecido apenas como “O Horda”, devido suas 24 personalidades. Essa busca acaba levando ambos para o mesmo hospital psiquiátrico onde Elijah Price (Samuel L. Jackson) – o vilão conhecido como Sr. Vidro – está internado. A partir daí, os três passam a ser objeto de estudo da doutora Ellie Staple (Sarah Paulson), uma especialista em distúrbios psicológicos que levam indivíduos a crer que são super-heróis.

O conceito de Vidro é simples, mas interessante: se os filmes anteriores são histórias de origem – respectivamente de um herói e de um vilão –, aqui temos a desconstrução, já que a personagem de Sarah Paulson é basicamente Shyamalan brincando com a possibilidade do que já fora apresentado ser apenas uma mentira. Visto o histórico do diretor, talvez o terceiro ato de sua trilogia representasse um plot twist para com os filmes anteriores. Entretanto, há de se questionar até onde o filme pode ser dependente de outro? No caso de Vidro, é essencial que os acontecimentos de Corpo Fechado estejam frescos na memória do espectador.

Como já mencionado, Shyamalan é um diretor controverso, mas ainda um bom diretor. Apesar de transitar entre produções boas e ruins, há de se reconhecer a paixão com a qual ele conta histórias. Ainda que filmar cenas de ação não seja seu forte – isso fica claro quando vemos os embates físicos entre David e a Besta, uma das personalidades de Kevin –, há momentos realmente interessantes durante Vidro, principalmente os que envolvem Elijah. O uso do cenário – um hospital psiquiátrico é um ambiente sugestivo por si só – também funciona, prendendo o espectador com aquelas figuras enquanto a doutora Staple tenta convencê-los – e a nós também – de que tudo não passou de uma ilusão.

Apesar disso, o roteiro – pelo qual Shyamalan também foi responsável – deixa a desejar pela forma com o qual ele lida com seus personagens. Por exemplo, se em Fragmentado, McAvoy tinha espaço para atuar, brincando com as diversas personalidades, aqui sua atuação é reduzida para um mais do mesmo. Apesar de contar com bastante tempo em tela, Bruce Willis fica em situação semelhante a de McAvoy, já que sua jornada é a mesma de Corpo Fechado, mas se antes, Elijah tentou provar que ele não era um humano comum, agora vemos alguém tentando convencê-lo do contrário. Sobra para Samuel L. Jackson e Sarah Paulson a tarefa de sustentar o filme, com diálogos precisos e atuações contidas, mas nas quais residem o peso dramático do filme.

Por sua vez, é possível ver Vidro por outra perspectiva. Menos óbvia – e mais interessante, ao meu ver – é enxergar o filme como uma metáfora à própria jornada de Shyamalan em Hollywood. Como qualquer profissional, ele precisou provar a alguém de suas próprias habilidades, mas depois entrou em uma má fase com um fracasso após o outro. Fragmentado, entretanto, foi a virada de roteiro em sua própria carreira, trazendo seu nome aos holofotes novamente. Assim, Vidro pode ser o questionamento sobre o talento de seu diretor, ou ainda, a constatação deste talento, onde este volta ao seu método mais clássico de cinema, com o terceiro ato arriscando tudo em prol de surpreender o espectador.

Por si só, Vidro deve agradar mais ao espectador que deve ir ao cinema esperando a sequência de Fragmentado – desde que este entenda a conexão com Corpo Fechado –, pois funciona enquanto conclusão. Entretanto, falha em estabelecer uma conexão com o espectador por si só, o que fica mais evidente em sua última meia-hora, onde o roteiro mostra sua fragilidade ao precisar recorrer à diálogos expositivos e incômodos. A impressão que fica é que o próprio Shyamalan não esperava concluir sua trilogia desta forma, mas acertou em cheio ao nomear o filme com o nome de seu personagem mais marcante: Vidro, tal qual Elijah Prince, é interessante, único, mas muito frágil.

Confira abaixo o trailer legendado:

Avaliação Final

50%
50%
Regular

Vidro (2019)
(Glass)
País: EUA | Classificação: 14 anos | Estreia: 17 de janeiro de 2019
Direção: M. Night Shyamalan | Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Sarah Paulson, Spencer Treat Clark

  • 2.5
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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", preferindo o termo "Filmmelier". Sonha em ser o Homem-Aranha quando crescer. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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