Homem-Aranha no Aranhaverso – Crítica

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Embora os fãs dos mutantes tenham passado maus momentos no cinema com produções sofríveis dos X-men, os fãs do cabeça-de-teia não ficam muito atrás. Após dois excelentes filmes do Aranha nas mãos do diretor Sam Raimi, vieram os fracos Homem-Aranha 3 e O Espetacular Homem-Aranha – responsável por reiniciar a franquia nos cinemas – e sua continuação, que agradou muitos fãs, mas não caiu no gosto da crítica. Os fãs só vieram a assistir um bom filme do personagem após o acordo entre Marvel e Sony que culminou em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, mas nada perto da qualidade dos primeiros filmes. Eis então que a Sony, decidida a explorar o rico universo do personagem, optou pela produção de uma animação do herói e finalmente parece ter encontrado um rumo a ser explorado com qualidade.

Assim, em Homem-Aranha: No Aranhaverso, o estúdio traz às telas uma versão animada da saga Aranhaverso dos quadrinhos, onde a ideia era unir o maior número de versões divergentes do personagem. No filme, Miles Morales (Shameik Moore) é um jovem do Brooklyn que, não bastando os problemas comuns da adolescência, acaba picado por uma aranha e ganha poderes aracnídeos semelhante ao famoso herói Homem-Aranha. Após se envolver em uma batalha ao lado do herói, onde este acaba falecido, decide honrar seu legado, entretanto, tudo fica mais estranho quando um Peter Parker de outra dimensão surge. Juntos, eles irão descobrir que a ameaça criada pelo Rei do Crime (Liev Schreiber) é algo muito maior que ambos.

O grande acerto da animação é justamente não se prender às convenções do gênero ou mesmo as de adaptações de quadrinhos. Em Homem-Aranha: No Aranhaverso temos um filme que tira sarro do histórico do personagem nas telonas – ou mesmo como produto, como na brincadeira com a música de natal –, mas sabe o momento de prestar suas devidas homenagens e vai além de qualquer outra adaptação do teioso: traz para o cinema, finalmente, a verdadeira essência do herói, algo que nenhuma outra encarnação do personagem conseguiu fazer completamente. Além disso, ao introduzir diversos outros personagens e o conceito de múltiplas dimensões, mostra que está disposta a percorrer caminhos inexplorados pela própria Marvel e deixa claro que ainda tem muita matéria prima para utilizar nos próximos anos além de Peter Parker e outros personagens já conhecidos do público.

E se há algum elemento do filme que possa ser destacado como “obra-prima”, é justamente a perfeição da animação, criada especificamente para o filme. Além de emular a textura quadrinesca nos cenários e personagens, permitindo uma imersão do espectador mesmo em uma sessão 2D, a animação brinca com toda a linguagem dos quadrinhos, trazendo elementos clássicos como os balões de pensamento – mesmo quando o personagem literalmente fala o que está escrito – e onomatopéias em momentos-chave – como quando Peter Parker ensina Miles a usar os lançadores de teia. E os elementos de quadrinhos vão além da animação, com gags visuais ou referências que irão agradar o público mais adepto da nona arte.

Sua sua animação se destaca, a história vai pelo caminho fácil de contar a origem do personagem Miles Morales, inédito no cinema. Sua jornada ora de assemelha a de Peter Parker, ora segue seu próprio caminho, mas o carisma de Miles é suficiente para que o público se apegue a ele logo nos primeiros minutos da trama. Além disso, a abordagem aplicada à Peter Parker, mostrando um herói em fase de decadência e que precisa se encontrar novamente enquanto herói, traz um ar novo ao personagem. Fora isso, há a presença da magnética Gwen-Aranha (Hailee Steinfeld), que chama atenção tanto por sua personalidade quanto pelo design da personagem. Os outros “aranhas” – Aranha Noir (Nicolas Cage), Porco-Aranha (John Mulaney) e Peni Parker (Kimiko Glenn) – servem mais para complementar o time e embalar algumas boas piadas, mas não vão muito além disso.

Diferente dos acertos do filme, os problemas de Aranhaverso beiram o clichê do subgênero de heróis no cinema. A começar pela superlotação de personagens – só de “pessoas-aranhas” temos seis –, algo que obviamente atrapalha o desenvolvimento de todos, principalmente dos vilões. Há também a questão de até onde o filme pode agradar ao público não-leitor de quadrinhos – e não estamos falando, necessariamente, de quadrinhos do Homem-Aranha –, o que pode tornar o filme cansativo ou sem-graça para aqueles que só conhecem o personagem por suas versões no cinema ou TV. Entretanto, nada disso deve atrapalhar a diversão do espectador casual ou das crianças, que ainda são o público-alvo do filme, mesmo que este tenha uma boa carga dramática na história de Miles.

Com personagens novos, uma história carismática e uma animação primorosa – que representa uma inovação para o cinema de animação –, Homem-Aranha: No Aranhaverso é a promessa de uma nova fase para os filmes de animação ou protagonizados por super-heróis. A Sony deixa claro que não precisa de Peter Parker por hora, pois há um extenso material em mãos que, se entregue para as pessoas certas, pode gerar obras tão interessantes e diferentes quanto esta. Ao final, fica uma certeza: Miles conquistou seu – merecido – espaço nas telonas e deve retornar em breve para mais aventuras no Aranhaverso. Assim esperamos.

Avaliação Final

90%
90%
Muito Bom

Homem-Aranha: No Aranhaverso (2018)
(Spider-Man in the Spiderverse)
País: EUA | Classificação: Livre | Estreia: 10 de janeiro de 2019
Direção: Bob Persichetti, Peter Ramsey | Roteiro: Phil Lord, Christopher Miller, Rodney Rothman, Alex Hirsch
Elenco: Shameik Moore, Jake Johnson, Hailee Steinfeld, Nicolas Cage, John Mulaney, Mahershala Ali, Liev Schreiber

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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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