CCXP 2018: Creed II – Crítica

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É seguro afirmar que o clássico Rocky – Um Lutador é um dos filmes mais influentes e relevantes da história do cinema, atravessando gerações e arrebatando novos fãs até os dias de hoje. Apesar de sua trama simples, a jornada do lutador cativa o público, principalmente por prezar pela emoção do espectador, alçando sua historia a um patamar mais pessoal para cada um que assiste a cada nova luta de Balboa, acompanhando de perto a superação do protagonista, dentro e fora do ringue. Com sua última continuação oficial – intitulada Rocky Balboa – lançada em 2006, foi somente nove anos depois que Sylvester Stallone voltou a dar vida ao personagem, no spin-off Creed.

Dirigido e co-roteirizado por Ryan Coogler, a história focada em Adonis Creed (Michael B. Jordan) não só se mostrou uma homenagem à altura do legado de Rocky como a continuação que melhor capturou o espírito do filme de estreia do garanhão italiano. E tal qual seu predecessor, era de se imaginar que a nova franquia retornaria ao cinema mais vezes. Assim, três anos depois, Adonis e Rocky retornam em Creed II, agora sob a direção de Steven Caple Jr. – Ryan Coogler retorna apenas como produtor –, que marca também o retorno de um dos oponentes mais marcantes de Balboa: Ivan Drago (Dolph Lundgren).

Assim, a verdadeira beleza de Creed II reside em seus detalhes. Se temos o retorno de Balboa como treinador de Adonis, o próprio Stallone reprisa seu papel de outrora como roteirista – Sly foi responsável pelos roteiros de todos os filmes de Rocky e também de partes pontuais no texto do primeiro Creed –, trazendo consigo a mesma simplicidade observada na franquia clássica. A escolha do oponente, por sua vez, carrega um simbolismo preciso para a continuação, já que Ivan Drago foi o responsável pela morte de Apollo Creed, pai de Adonis. O sentimento do fã é trazido à tona durante o filme, na voz de comentaristas esportivos que afirmam “Nunca imaginei rever Creed vs Drago 30 anos depois”.

Com um adversário a altura – resolvendo a única coisa que deixou a desejar no primeiro filme –, Stallone preza pelo amadurecimento de Adonis enquanto ser humano e pugilista. Se antes o drama do personagem consistia em se provar à altura do legado do pai, agora ele caminha em uma jornada muito mais pessoal, tentando ser um bom pai e marido para Bianca (Tessa Thompson) enquanto busca uma redenção para o legado Creed. Para contrastar a evolução de Adonis, o roteiro dá a devida atenção aos oponentes, desenvolvendo com cuidado o ressentimento de Ivan Drago e sua relação com Viktor (Florian Munteanu), que também anseiam por seu próprio lugar ao sol.

Novamente Michael B. Jordan mostra que veio para cravar seu posto como um dos grandes nomes da geração atual de Hollywood, compondo sua performance em um misto suave de emoções. Persistem sua impaciencia, seu jeito explosivo, mas também o conflito, a dúvida e o medo, fazendo com que seu personagem seja extremamente humano e, portanto, suas dores sejam reais. Não é diferente com Stallone, que segue entregando uma atuação meticulosa, externando a fragilidade do personagem que outrora foi sinonimo de força, mostrando que só lidando com nossas fraquezas é que podemos nos tornar verdadeiramente fortes.

O reforço do elenco com Lundgren e Monteanu é bem-vindo, já que ambos apresentam uma dinâmica crível de pai e filho, que demonstra o amadurecimento de Ivan sem descaracterizar a imagem que temos do personagem ao passo que deixa claro para o espectador como a personalidade de Viktor fora moldada para tornar-se o pugilista perfeito que traria de volta a gloria ao nome Drago.

A dinâmica entre esses personagens – novos e velhos – pode parecer complicada para um filme que busca manter sua própria identidade, mas a direção de Steven Caple Jr. é efetiva ao traduzir para as telas a sutileza de seu roteiro. Embora siga maximizando a experiência para o fã antigo, o diretor faz questão de situar o filme em seu próprio tempo, sem apoiar-se na muleta nostálgica como é comum no cinema contemporâneo. Rimas visuais e trilha sonora evocam o espírito da saga Rocky e ate botam um sorriso do rosto do espectador, mas o que irá fazê-lo ir às lágrimas é mesmo mérito de Creed.

Entretanto, por melhor que seja a direção de Caple Jr. – que cria instigantes sequências dentro do ringue –, a ausência de Ryan Coogler se faz sentir, não só pelo modo de filmar deste ser muito mais inventivo – e imersivo – que o do diretor atual, como também pelo seu controle criativo sobre o texto, que chega a se perder no meio do filme, criando momentos que arriscam dar mais profundidade à trama, mas não vão além e resultam em pontas soltas que poderiam ser excluídas com facilidade. Não chega a destruir o resultado final, mas nota-se uma menor fluidez se comparado ao anterior.

Creed II portanto é nada menos que a oportunidade de fazer as pazes com o passado. É possível enxergar a trama do filme como uma metáfora para sua existência, que corrige erros anteriores para consolidar o caminho a ser trilhado no futuro. Assim, é nítido que Stallone deseja encerrar sua participação na franquia em grande estilo, sem arrependimentos para Rocky, Adonis ou mesmo Ivan Drago. Felizmente, sua emocionante conclusão vem carregada de lágrimas e um largo sorriso, além de, claro, o anseio para o próximo round.

Confira o trailer legendado do filme:

Avaliação Final

80%
80%
Muito Bom

Creed II (2018)
(Creed II)
País: EUA | Classificação: 12 anos | Estreia: 24 de janeiro de 2019
Direção: Steven Caple Jr. | Roteiro: Sylvester Stallone, Cheo Hodari Coker
Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashād, Dolph Lundgren, Florian Munteanu

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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", preferindo o termo "Filmmelier". Sonha em ser o Homem-Aranha quando crescer. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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