Infiltrado na Klan – Crítica

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Há um certo momento em Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman) no qual vemos um grupo de homens brancos praticando tiros no meio do nada. Há um clima de companheirismo e descontração na cena, nos diálogos, nas atuações, mas o diretor Spike Lee sabiamente mantém sua câmera focada em seu elenco. E somente quando, no momento seguinte, o protagonista surge no mesmo local, o diretor nos permite ver os alvos acertados por aqueles homens: cinco imagens de pessoas negras. A sequência é impactante, poderosa, criando um mal estar instantâneo ao público. A empatia para com o protagonista – que já viera sendo construída desde os minutos iniciais – é levada a um novo nível e não há mais volta, com cada momento seguinte sendo um soco ainda mais forte no estômago do espectador.

Esta é somente uma dentre as diversas cenas poderosas que Infiltrado na Klan traz em sua estrutura. A história real – algo que Lee informa logo nos primeiros minutos com uma boa dose de ironia – é adaptada do livro escrito pelo policial Ron Stallworth (interpretado por John David Washington) onde ele relata sua inacreditável investigação por dentro da organização secreta Ku Klux Klan nos anos 70. Conhecido como um dos diretores mais ativistas de Hollywood, Spike Lee se alia ao produtor Jordan Peele – diretor do ótimo Corra! – para dar à obra um tom mais humorado do que se poderia esperar, mas que felizmente permanece entre a comédia e o incômodo. Ácidos na medida certa, Lee e Peele entregam uma um humor que não faz rir, mas serve como parâmetro do ridículo. O discurso racista, por exemplo, sempre é proferido por personagens caricatos, mas a risada do espectador é inibida pela simples consciência de que tais discursos – inconcebíveis de tão exagerados – foram e são reais.

No centro de tudo isso, temos a sutil e cativante atuação de John David Washington. O ator passa veracidade nos conflitos internos de Ron, algo essencial para criar a empatia necessária não apenas com o personagem, mas pelo preconceito que ele sofre – dos policiais por ser negro, dos negros por ser policial – e, mais importante, faz com que o espectador embarque em sua luta. Ao lado de Washington temos Adam Driver como Flip, um dos policiais que possui papel central dentro da investigação.  Não é possível dizer até onde Lee se ateve aos fatos para com o personagem, mas é muito interessante a forma que a personalidade – e crenças pessoais – de Flip por vezes contrastam, por vezes complementam Ron. Ainda assim, o roteiro e as boas atuações da dupla – e claro, a dinâmica da trama – impedem que a relação deles se torne algo como o que vemos em filmes buddy cops.

Para antagonizar com a dupla policial, temos Felix (Jasper Pääkkönen) – o típico vilão “cachorro louco” cuja convicção é exalada por seus trejeitos e diálogos – e o líder da Ku Klux Klan, David Duke (Topher Grace), personagem que o diretor trabalha com maior profundidade por meio de diálogos, a fim de mostrar como o uso das palavras e uma boa eloquencia pode ser mais perigoso do que atos explicitos de violencia. É com a presença de Duke que Lee constrói uma angustiante semelhança com diversos outros líderes, algo que fica mais explicito conforme o filme caminha para seus minutos finais, que prometem deixar o espectador sem palavras tamanho o impacto da cena.

Ainda que o discurso politico que embale o filme seja o pilar principal da trama, seria injusto não reconhecer o trabalho realizado pela equipe técnica. A montágem ágil e a trilha sonora se destacam e merecem elogios à parte por elevarem o valor da obra enquanto arte e também entretenimento. A escolha das músicas que embalam a trama é precisa e a trilha de Terence Blanchard, parceiro habitual de Lee, guia o espectador pela trama de forma sutil, surgindo – e sumindo – nos momentos certos. O trabalho do montador Barry Alexander Brown brinca com a “dualidade” da dinâmica entre Ron e Flip, acentuando a tensão durante as cenas com enfoque na KKK e a ironia nos momentos que vemos Ron conversando ao telefone com algum membro da organização racista. Fora isso também temos seu trabalho com as citações ao movimento blaxpoitation, inserindo imagens na tela para contextualizar as referencias para o espectador sem transformar o filme em uma apresentação de powerpoint.

Infiltrado na Klan não é apenas um trabalho ótimo de Spike Lee, mas um grito de protesto do diretor, que utiliza uma historia inacreditável para rebater o momento político atual – tão inacreditável quanto – da melhor forma possível. É nas entrelinhas do roteiro que Lee expõe seus pensamentos quanto à ameaça e o preconceito que vem sendo legitimado pelos discursos de líderes eleitos nos últimos anos. Com isso, a reflexão deixada ao final permanece com o público após sua silenciosa e dolorosa conclusão, afinal, a realidade trazida em Infiltrado na Klan é mais desconfortável do que qualquer ficção poderia ser.

Confira o trailer legendado:

Avaliação Final

90%
90%
Muito Bom

Infiltrado na Klan (2018)
(BlacKkKlansman)
País: EUA | Classificação: 16 anos | Estreia: 22 de novembro de 2018
Direção: Spike Lee | Roteiro: Spike Lee, David Rabinowitz, Charlie Wachtel, Kevin Willmott
Elenco: John David Washington, Adam Driver, Topher Grace, Jasper Pääkkönen, Harry Belafonte, Laura Harrier

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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", preferindo o termo "Filmmelier". Sonha em ser o Homem-Aranha quando crescer. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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