Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald – Crítica

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É inegável que a franquia Harry Potter se tornou a galinha dos ovos de ouro da Warner, principalmente após o término da saga, quando o estúdio recorreu à franquias super-heróicas para substituir a fábrica de dinheiro que foram as aventuras no universo criado por J.K. Rowling. Entretanto, visto que o plano A do estúdio não deu tão certo, os executivos resolveram apostar baixo e retornar ao universo de magia, com o apoio da escritora – agora roteirista – para criar uma nova série de filmes, dessa vez baseada em um livro academico da mitologia “Potteriana”. Surgiu assim Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Portanto a grande questão não era se a nova franquia seria um caça-níquel, mas sim se iria se sustentar para além disso. Apesar de um bom filme, Animais Fantásticos tem seus problemas e não alcança a força da franquia original, mas rendeu um bom momento aos fãs órfãos e aos executivos, garantindo sua continuação – quatro, no caso – sendo a primeira destas o esperado Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald. Fica então a pergunta: o nível da franquia foi, enfim, elevado?

Na trama, poucos meses após o primeiro filme, o bruxo das trevas Grindelwald (Johnny Depp) escapa de sua prisão em Nova Iorque e torna-se, novamente, uma grande ameaça velada aos mundos mágico e não-mágico. Cabe a Newt Scamander (Eddie Redmayne), sob a tutela do poderoso Albus Dumbledore (Jude Law) tentar impedir Grindelwald. Não se engane, porém, ao achar que este filme foca apenas em desenvolver e continuar os eventos do anterior, pois cabe a ele a função de solidificar a ponte entre as duas franquias, unindo-as de fato, com muito mais do que a presença do emblemático diretor – aqui, professor – Dumbledore.

Se o primeiro filme errava ao tentar abordar duas vertentes da franquia original – por vezes leve, quase ingênua e em outros momentos beirando um thriller político –, em Os Crimes de Grindelwald Rowling decide a direção na qual quer seguir e a historia que quer contar, mantendo seu texto em um tom mais maduro, de constante inquietação pela presença do vilão, mas que conserva seus pontuais momentos de leveza. Aqui portanto, o pecado de seu roteiro recai mais sobre a fragmentação de sua trama do que na inconstância desta.

Tal como visto em diversas “partes do meio”, Os Crimes de Grindelwald sofre na hora de desenvolver seus personagens. Para tal, Rowling cria inúmeras subtramas que, em primeiro momento, não conversam entre si. Além do retorno dos quatro protagonistas – Newt, Tina (Katherine Waterston), Queenie (Alison Sudol) e Jacob (Dan Fogler) – e de Creedence (Ezra Miller) e Grindelwald, temos a re-introdução de Dumbledore, além de Leta Lestrange (Zoë Kravitz), Nagini (Claudia Kim), Theseus Scamander (Callum Turner) e outros. Basta uma olhada no material de divulgação para perceber que há muitos personagens e com muitos deles recebendo subtramas próprias, o roteiro mal tem tempo para abordar os tais crimes do título.

É em seu terceiro ato que o roteiro de Rowling converge suas tramas para algo maior e é também onde Johnny Depp tem maior espaço para mostrar a que veio. O ator acostumado a papéis mais exagerados, surge com uma performance brilhantemente contida, mas não necessariamente fraca. Se Dumbledore uma vez disse que “as palavras são nossa fonte inesgotável de magia”, hoje pode-se apontar que a razão para esse pensamento é Grindelwald, que através de um comportamento persuasivo e calmo, contrapõe-se ao descomedido Voldemort. Ainda que possua pouco tempo em tela, o texto e atuação deixam claro que o personagem pode superar o lorde das trevas com facilidade, mas isso depende do seu desenvolvimento nos filmes vindouros.

Algo que deixa a desejar em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald é a falta de sutileza com a qual Rowling aborda alguns elementos de sua mitologia. Nada que necessariamente atrapalhe o andamento da trama, mas é de se notar que alguns personagens, elementos e até os próprios animais fantásticos do título tem sua presença justificada unicamente pelo luxo. Se em Harry Potter tudo tinha seu lugar para que a historia puxasse ganchos significativos posteriormente, em Os Crimes de Grindelwald a única função de certas coisas introduzidas é ludibriar a nostalgia dos fãs. Ironicamente, é essa nostalgia que pode atrapalhar a experiencia do fã mais assíduo, visto que Rowling se atrapalha com os fatos criados por ela mesma e crie fortes contradições para com seu universo.

Na parte técnica, há o retorno de David Yates na direção. Familiar ao universo de Harry Potter – é sua sexta empreitada na franquia –, Yates entrega um trabalho decente e por vezes inspirado, mas que fica aquém do que já apresentara – principalmente em Relíquias da Morte: Parte 1 –, ainda que não comprometa o resultado final. James Newton Howard é quem rege a trilha sonora do filme e um dos poucos profissionais envolvidos que entrega, de fato, um trabalho exemplar. Sua trilha é exatamente aquilo que o filme precisa e mais, elevando a qualidade do resultado final.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald não é um filme ruim, mas causa certo desconforto devido o histórico de J.K. Rowling como escritora, pois lhe falta a mesma desenvoltura enquanto roteirista. Seu bom elenco acaba perdido meio à subtramas muito enroladas ou simplesmente desnecessárias e seu roteiro se fragmenta suficientemente para perder o impacto que almeja. Entretanto, não deixa de ser um leve avanço mediante o primeiro filme, mas fica claro que se Rowling abrisse mão de um ou dois coadjuvantes – ou mesmo trabalhasse com uma melhor montagem – o resultado apresentado seria muito superior. Quem sabe, até mesmo à altura do garoto que sobreviveu.

Confira o trailer legendado:

Avaliação Final

60%
60%
Bom

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (2018)
(Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald)
País: EUA | Classificação: 12 anos | Estreia: 15 de novembro de 2018
Direção: David Yates | Roteiro: J.K. Rowling
Elenco: Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Alison Sudol, Dan Fogler, Johnny Depp, Jude Law, Ezra Miller

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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", preferindo o termo "Filmmelier". Sonha em ser o Homem-Aranha quando crescer. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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