Cinco motivos para assistir The Handmaid’s Tale

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Vamos dizer que você esteve em Marte, ou perdido em uma ilha deserta nesses últimos dois anos e não ouviu falar desta série incrível. Esse artigo é para você! Mas também é uma celebração para todos aquele que, assim como eu, ficaram completamente impactados com ela. The Handmaid’s Tale não é uma série fácil. Não serve para assistir despretensiosamente. Ela é violenta, forte, crua. Um tapa na cara que você não sabe de onde veio. Não é à toa que ganhou 8 Emmy’s e 2 Globos de Ouro logo na primeira temporada.

A série é baseada no livro “O conto da Aia” de Margaret Atwood lançado em 1985. Ela conta a história de um futuro próximo distópico, onde as taxas de fertilidade do mundo caíram e a região onde seria os Estados Unidos se chama Gilead. O lugar é governado por um grupo de fanáticos religiosos, em uma sociedade totalmente patriarcal, onde as mulheres não tem direito a nada. Trabalhar, possuir propriedades, ter contas em bancos e até mesmo ler são coisas que pertencem ao passado. Todas as decisões, inclusive sobre suas vidas, são tomadas pelos homens.

Achou horrível? Pois é. Mas tem mais… Até mesmo o seu lugar na sociedade é decidido por homens. A mulher só poderia ser esposa, Martha (Que é uma espécie de empregada das casas), tia (Mulheres que cuidam das aias) e Aia. É aí que a série se torna mais pesada e dolorosa. Aias são mulheres solteiras – ou em um segundo casamento – que já se provaram férteis. Em um mundo onde isso é raro, os governantes tomaram uma decisão escabrosa: Usar essas mulheres para dar filhos aos comandantes do governo cujas esposas eram estéreis. E isso se dava da pior forma possível: elas eram estupradas durante seu período fértil em uma espécie de cerimônia, enquanto a esposa as segurava pelos braços.

A história é contada do ponto de vista de June Osborn (Elisabeth Moss), uma antiga editora que teve sua filha tirada dos braços. Depois foi levada para ser aia e gerar filhos para um dos mais importantes casais do governo, Fred e Serena Waterford (Joseph Fiennes e Yvonne Strahoviski). Lá ela é chamada de Offred. Todas as aias são chamadas pelos nomes de seus comandantes, como se fossem propriedades.

Como a classificação indicativa é 18 anos, vocês podem imaginar que há muitas cenas pesadas de sexo e violência. Então, para que assistir, se o mundo já é violento o bastante? Pois vou dar cinco motivos para vocês entrarem no mundo sinistro de Gilead.

  1. É importante.

Acho que esse é o principal ponto de The Handmaid’s Tale. O livro, segundo a autora, é baseado em países do oriente médio dos anos 80. Então é praticamente impossível assisti-la sem relacionar com muitos eventos do nosso mundinho real. E acredito que é por isso que ela choca tanto. A mensagem que ela passa, as vezes nas estrelinhas, as vezes como aquele tapa na cara que comentei no início, chega a machucar.

E é isso que a faz importante. A relação da história com coisas que passamos todos os dias. A luta da mulher por espaço e reconhecimento grita o tempo inteiro. Me faz lembrar do Irã dos anos 70, onde as mulheres usavam biquínis, trabalhavam, estudavam e eram donas dos próprios narizes. E de repente tiveram todos os seus direitos reduzidos a nada. Podemos escutar o grito delas ali: o clamor por liberdade, por direitos. Ainda que não vivamos no Afeganistão, ou no Irã, também bradamos por igualdade de alguma maneira, em um mundo que ainda é movido em sua maior parte por homens.

A relação religião/governo também é outro assunto que mexe demais quando assistimos. Ok! Não estamos com problemas de fertilidade ou a beira de um colapso social. Mas a importância de um estado laico é mostrada ali. Alguém lembra de um único país que misture política e religião e esteja entre os mais ricos ou justos do mundo? Muitos países do oriente médio e alguns da África deixam claro que colocar os dois assuntos mais polêmicos do mundo na mesma panela não dá certo. Ainda que você não concorde comigo, o tema é algo que vale a pena ser pensado e discutido. Precisamos falar do assunto!

The Handmaid’s Tale é uma série polêmica que nos faz pensar. O que faríamos em uma situação de colapso? Em um possível beco sem saída para a humanidade? Situações extremas exigiriam medidas extremas, ainda que firam a dignidade de outrem, nos transformando em animais? Nada do que é mostrado na série é gratuito. Nos ferimos assistindo-a, mas é uma ferida necessária. Talvez para nos mostrar que os fins não justificam os meios. Que precisamos ser melhores. Ter mais empatia. Pensar no próximo e agir como gostaríamos que agissem com a gente. Não aprendi isso com June, mas ela me lembrou mais de uma vez.

  1. Elenco extraordinário

Se eu pudesse escolher minha parte preferida sobre a série seria o seu elenco. Não tem um único personagem que não seja crível. Não tem uma bola fora! Todos os atores são extraordinários! Poderia destacar um por um, mas esse artigo não terminaria nunca, então, vou apenas expor meus preferidos.

Elisabeth Moss não ganhou o Globo de Ouro e o Emmy à toa. Sua June não precisa de palavras. Ela consegue transmitir tanto com seu olhar que elas se tornam completamente desnecessárias. Perdi as contas de quantas vezes chorei ou fiquei angustiada apenas ao olhá-la.

Joseph Fiennes e Yvonne Strahovisk são outros que são impressionantes. Você odeia Fred cada vez mais conforme vai conhecendo-o, de maneira gradual. Acho que isso aconteceu até com June. Já os meus sentimentos por Serena são confusos. As vezes eu a odeio, as vezes tenho pena. Não são personagens caricatos. São humanos.

Preciso destacar também Madeleine Brewer e Alexis Bledel, como as aias Janine e Emily. A primeira é deliciosamente louca e otimista. Você não consegue não amá-la. A segunda, eu comecei dizendo “Ei! É a Rory!” e terminei sem nem lembrar-me de Gilmore Girls. Ambas estão impecáveis em seus papéis.

  1. Personagens fortes

Se o elenco é incrível, seus personagens os ajudam e muito. Todos, sem exceção, muito bem construídos. Você sabe o que esperar de cada um. São absolutamente memoráveis, impressionantes. E humanos! Não são maus ou bons o tempo todo. São reais.

Como você agiria em um mundo sem liberdade? Você teria força para se rebelar ou deixaria a maré te levar? Nós vemos essa escolha ali nos personagens. Quando digo rebelar não significa grandes gestos. Apenas fazer um caminho diferente do que deviam ou dizer seu nome real para outra pessoa já é um ato de rebeldia. São esses pequenos momentos que demonstram a fortaleza de muitos dos personagens.

Quanto aos comandantes e às famílias, a força está ali também e você consegue entender como eles chegaram até onde estão. Como conseguiram fazer o país se tornar o que eles queriam: Gilead. Mais do que nunca entendemos o poder da palavra.

  1. Aspectos técnicos

Uma das coisas que mais gostava em Breaking Bad era a paleta de cores. Tinha a sensação de que todas eram escolhidas propositalmente para a série. E eram. Isso acontece novamente com The Handmaid’s Tale. A escolha das cores nos define personagens, regiões, momentos. É um primor!

O design de arte assinado por Julie Berghoff é impressionante. Conseguiram descaracterizar uma cidade gigantesca como Boston a ponto de se tornar irreconhecível. A própria arquitetura com um jeito de puritanismo conta a história sozinha. Locações impecáveis, tenho que dizer!

Outro ponto positivíssimo é o figurino impecável assinado por Ane Crabtree. Ela usou as cores das roupas relatadas no livro, mas teve a sensibilidade de usar peças clássicas, que não deixou o figurino datado. A série poderia se passar em qualquer momento do século XX ou XXI.

A fotografia da série merecia um destaque a parte. Não há, nesse momento, na TV uma série com uma fotografia mais bonita do que essa. A direção de arte é tão sensacional, que, misturada a paleta de cores, transforma tudo em obras de arte. Não acreditam? Aqui vai algumas provas…

  1. Trilha sonora

Como se tudo isso já não fosse suficiente parar amar a série, a trilha sonora, com músicas atuais, fazem um contraponto perfeito ao ambiente soturno que a série nos traz. Se tudo aquilo é desesperador, a música (como sempre) nos renova a esperança. É o ato de rebeldia da série dentro da série.

“Don’t you forget about me” do Simple Minds grita com a sociedade logo no segundo episódio. “You don’t own me” de Lesley Gore era tudo o que June queria dizer aos Waterfords. E White Rabbit, Heart of Glass, Feeling Good, Creep… Ok! Sinto que quero fazer uma playlist da série no Spotify!

Só o que eu posso dizer mais é: O que estão fazendo que não foram assistir essa obra prima? Se você é mulher, homem, animal, objeto… Não me importa! Vocês precisam ter essa experiência. Nem que seja pra me xingar dizendo que estou errada depois.

The Handmaid’s tale é uma série da plataforma Hulu e está sendo transmitida no Brasil pelo canal Paramount.

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DCzete que adora a Marvel, escritora, melhor amiga de Leia Organa, prima do Superman, moradora de Valfenda e membro da Corvinal. Ok! Talvez alguns deles, apenas em sua imaginação. Bernard Cornwell e Neil Gaiman guiam sua vida.

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