Book Review #6 – Naked Lunch

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Escrito principalmente em um estilo “hard-boiled”, que imita (e muitas vezes, zomba) o gênero clássico de detetive, “Naked Lunch” praticamente funciona sem uma narrativa, mostrando um alter-ego de Burroughs, juntamente com um elenco de protagonistas que se deslocam dentro de alucinações por conta de heroína, passando por obsessão e degradação sexual, enredos políticos bizarros e até mesmo experiências médicas estranhas.

A narrativa é elástica, com capítulos saltando entre locais como Nova York e México, de uma forma em que a “história” poderia ser vista como um livro de viagens de crescente depravação, violência, crueldade e paranóia.

O que une tudo isso é o tema implícito do vício, ou o que Burroughs chama de “álgebra da necessidade”, onde a busca cada vez mais desesperada por heroína serve como uma metáfora para obsessões, igualmente destrutivas, que giram em torno da necessidade de controle, seja sexual, político ou social.

Ler “Naked Lunch” é uma experiência complexa. É necessário uma preparação mental e entender que nada vai ficar claro na primeira vez, muito menos na segunda, terceira, quarta…

Por conta de uma falta de algo tangível para ser dito, o material apenas choca e não aparenta, de inicio, contribuir de outra forma. No entanto, ainda é considerado um clássico norte-americano, pois contribuiu com a abolição da censura literária nos Estados Unidos.

Apesar da falta de fluxo de escrita ou até mesmo de consciência, o livro avisa sobre esses “problemas” desde o inicio. Os personagens aparecem do nada, se transformam em outros personagens e desaparecem por completo. É o tipo de livro onde, em certas páginas, frases não têm nada a haver uma com a outra, normalmente pontuadas com elipses (o que, como uma indicação de perda, é o ajuste perfeito para Burroughs).

Como nada é linear, isso está mais próximo de uma coleção de contos do que de um romance apropriado, e o leitor pode navegar pelos capítulos sem perda de compreensão.

Os Beatniks tinham esse gênero de escrita, quase uma racionalização do estilo de vida indulgente e hedonista adotado por alguns poucos drogados alfabetizados.

Quase 99% do que Burroughs descreve neste livro o teria colocado em uma prisão federal, mas, uma vez escrito, de alguma forma se qualificava como elogiável.

Hunter S. Thompson fez algo semelhante com o abuso de drogas e excesso em seu trabalho, mas a principal diferença entre os dois é que Thompson tinha uma narrativa que amarrava seu trabalho como um todo. Ambos os autores parecem gritar “Foda-se o sistema”, mas Burroughs é tão cheio de heroína que dificulta o entendimento.

Apesar disso, “Naked Lunch” mantém seu fascínio por conta da qualidade de sua escrita e, porque nela, Burroughs abordou assuntos que ainda são altamente relevantes. De fato, pode-se argumentar que a “álgebra da necessidade” é mais prevalente em nosso mundo saturado de sexo e drogas, utilizados em excesso no entretenimento.

“On The Road” de Jack Kerouac, ou “Howl”, de Allen Ginsberg, embora tenham resistido ao teste do tempo, também são trabalhos feitos para o tempo vivido pelos autores, descrevendo mundos que, possivelmente, não existem mais.

No entanto, muito de “Naked Lunch”, parece que poderia ter sido escrito ontem. Burroughs ainda têm as garras enfincadas no nosso mundo atual, querendo ou não.

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Tem interesse em ler mais resenhas de livros no Duas Torres? Confira a resenha do livro As Boas Damas, de Clara Madrigano. 

About Author

Eu nasci no dia 12 de outubro de 1990. Poderia te dizer a hora exata (se eu soubesse). Como toda boa primogênita, quase matei meus pais do coração nos primeiros segundos de vida, e não parei desde então. Meu grande e eterno amor sempre será a literatura. Música também. Coloca filmes e séries na lista. E comida. Ok, talvez a literatura não seja meu único amor... Sou jornalista, constantemente procurando sobre o que escrever. E procurando o botão de fazer minha mente parar de funcionar. Quê? Isso era pra ser uma informação biográfica? Pra mim, tá mais pra terapia.

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