Tungstênio – Crítica

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O atual cenário da indústria cinematográfica se esbalda nas adaptações de histórias em quadrinhos – em especial, histórias de super-heróis. Há, no entanto, obras que fogem do padrão heróico e preferem se apoiar no romance, no drama e no cotidiano palpável de seus personagens. É na relação e conexão entre diferentes vidas baianas que Tungstênio, adaptação da obra de Marcello Quintanilha, deleita espectadores.

De relance, a trama central de Tungstênio pode ser banal – como descrito em sua própria sinopse -, mas assim como a HQ de Quintanilha, o filme dirigido por Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo) escala de forma intensa do início ao fim através de seus incríveis personagens e eventos impactantes que retratam a realidade do subúrbio de Salvador, capital da Bahia.

A presença inicial do narrador machadiano (Milhem Cortaz) dita as regras das vidas de Keira (Samira Carvalho), Richard (Fabrício Oliveira), Seu Ney (José Dumont) e Cajú (Wesley Guimarães), os personagens centrais desta história. Ao mudar seu estilo narrativo – da terceira para a primeira pessoa -, o narrador reproduz trejeitos que marcam e definem os protagonistas de Tungstênio, sem medo de dar alma a um filme repleto de eventos simples, mas não menos surpreendentes. Ao longo dos oitenta minutos de duração, notamos a eficiente narrativa conseguir balancear as marcantes presenças de cada um dos protagonistas e cada uma de suas distintas personalidades, sem perder equilíbrio ao intercalar ações e diálogos.

Além do equilíbrio narrativo, Tungstênio triunfa nas mais diversas vertentes técnicas que o compõem. Os quatro personagens centrais são sustentados por atuações impecáveis, que mantêm fidelidade total ao adaptar a obra de Quintanilha. Samira Carvalho, que estreia nos cinemas como Keira, mulher do policial Richard, se porta  confortável diante das câmeras e, mesmo que o papel lhe exija intensidade e desconforto, a atriz conquista atenções com uma performance exuberante.

Richard, interpretado por Fabrício de Oliveira, segue o padronizado policial linha dura de tantas outras ficções, mas mostra que até as cascas mais grossas podem ser fragilizadas – seja fisicamente, seja emocionalmente. Cajú, do ator Wesley Guimarães, consegue fugir do estereótipo marginalizado ao almejar a equilíbrio pessoal em meio à sua vida conflitante. Já o ex-sargento Seu Ney, do brilhante Zé Dumont, atinge extremos entre o caricato e o realista a cada fala. Todos os realizadores de Tungstênio são desbravadores da contemporaneidade e da construção cinematográfica, do roteiro à pós-produção.

Assim como o quadrinho, o filme consegue êxito completo ao “dar ordem a um caos temporal“, como dito pelo roteirista Fernando Bonassi durante uma coletiva de imprensa realizada no Espaço Itaú de Cinema, em São Paulo. A concepção não-linear da narrativa de Tungstênio tem todas as ferramentas para cair no caos mencionado, mas a perfeita execução técnica, assim como a performance dos atores e o roteiro muito bem alinhado, não permitem que Tungstênio se torne uma bagunça aleatória. Do começo ao fim, assistimos à uma das mais fiéis adaptações cinematográficas, que também se permite surpreender em seus minutos finais.

O diretor Heitor Dhalia e o diretor de fotografia Adolpho Veloso também souberam captar a essência visual dos quadrinhos e, ao utilizar quadros da premiada obra de Quintanilha como referência, levam às telonas os principais ângulos com fidelidade incontestável, mesmo que possam causar desconforto em públicos conformados com planos mais monótonos.

Tungstênio é uma adaptação brilhante, humana e bela, que retrata Salvador pelos pontos de vista de quatro personagens singulares, mas que cruzam caminhos em meio a um caos organizado. Roteiro, atores, fotografia e direção dão vida às páginas do autor Marcello Quintanilha com ação e emoção. Cada um possui seu objetivo, cada um possui sua motivação, mas, no final, o que pesa é o instinto.

Tungstênio estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 21 de junho.

90%
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Ótimo

Tungstênio (2018)
(Tungstênio)
País: BRA | Classificação: 16 anos | Estreia: 21 de Junho de 2018
Direção: Heitor Dhalia | Roteiro: Justine Otondo
, Ducha Lopes, 
Marcello Quintanilha, Fernando Bonassi
, Marçal Aquino
Elenco: Fabrício Oliveira, Samira Carvalho, José Dumont, Wesley Guimarães, Pedro Wagner, Sergio Laurentino, Heraldo de Deus

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Cofundador e editor-chefe do Duas Torres. Fascinado pela narrativa de J. R. R. Tolkien e pela evolução do entretenimento, encontra paz ao escrever sobre filmes, séries e games.

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