Book Review #3 – Canção de Ninar

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“O bebê está morto.” Uma frase que aterrorizaria qualquer alma é, simplesmente, o começo de “Canção de Ninar” ou, talvez, o fim. 

Assim como alguns bons livros, Leïla Slimani começa a história já nos contando como irá terminar. O resultado não é o que deve encantar o leitor, mas sim como a autora chegou à ele.

Após o susto inicial e a sensação de que o livro será fatal e humanamente angustiante, entramos na dia-a-dia da família de Paul e Myriam. É costume do ser humano se adaptar à vida doméstica. Aquela vidinha pacata que poderia produzir felicidade, mas geralmente produz tédio. É o que comprova Myriam durante sua rotina com seus filhos Mila e Adam. Ela sente a necessidade de voltar à trabalhar.

Isso traz um dilema: Como deixar seus filhos com uma completa estranha? O prático Paul toma as preocupações de sua esposa e, então, começam à busca por alguém em quem confiar.

Eles poderiam contar sua sorte quando Louise surgiu. Parecia a perfeição em formato de babá. Disponível e com muita experiência, Louise foi se instalando na vida da família com facilidade. Um anjo que transformou o buraco claustrofóbico que o casal chamava de casa e fez-se um lar. No entanto, a realidade é que ela faz de tudo por eles, mas não pertence àquela família.

A história de Louise é contada pela visão do narrador. Reservada, frágil, obssessiva, impecável. Entre capítulos curtos, e mudanças de cenários, entendemos melhor seus segredos, mas não necessariamente o que a levou a cometer o crime que tanto espantou no começo da história.

Slimani teve certa dificuldade em trabalhar uma personagem complexa sem deixá-la caricatural. Existem contradições sociais e uma linha sútil que separa estabilidade mental e loucura. Assim como existe a dúvida se Capitú traiu Bentinho, resta a dúvida se Louise, de fato, é louca. 

“Canção de ninar” nos faz questionar se conhecemos quem está ao nosso redor, se pessoas conseguem ser somente boas ou más.

Pode ser retratada, também, como uma narrativa de culpa maternal. Myriam quer ver os filhos crescerem, quer ter essa conexão com eles, mas também quer trabalhar e ter uma vida à parte. A culpa que a sociedade e ela mesma coloca em cima de si nos faz pensar que ninguém é perfeito. Nem sempre é possível conciliar os dois mundos.

Um livro de leitura fácil e expansiva, “Canção de ninar” é a obra vencedora do prêmio Goncourt de 2016, o mais prestigioso prêmio de literatura francesa. O livro é o segundo romance publicado pela escritora e jornalista franco-marroquina, Leïla Slimani, e já está sendo discutido a possibilidade de virar filme.

Leïla Slimani é a autora do livro Canção de Ninar, obra francesa ganhadora do prêmio Goncourt. Fonte: Google

Narrativa triste que, infelizmente, não agradará à todos. Algumas partes podem ser maçantes, devido ao senso de rotina colocado na escrita, mas não é algo constante e pode ser superado através do esforço de Slimani de criar personagens com quem os leitores podem se identificar.

É um livro e uma autora que valem muito a pena conferir.

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Tem interesse em ler mais resenhas de livros no Duas Torres? Confira a resenha do livro O Ódio que Você Semeia, de Angie Thomas.

About Author

Eu nasci no dia 12 de outubro de 1990. Poderia te dizer a hora exata (se eu soubesse). Como toda boa primogênita, quase matei meus pais do coração nos primeiros segundos de vida, e não parei desde então. Meu grande e eterno amor sempre será a literatura. Música também. Coloca filmes e séries na lista. E comida. Ok, talvez a literatura não seja meu único amor... Sou jornalista, constantemente procurando sobre o que escrever. E procurando o botão de fazer minha mente parar de funcionar. Quê? Isso era pra ser uma informação biográfica? Pra mim, tá mais pra terapia.

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