Deadpool 2 – Crítica

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Mesmo em busca de um lado mais passional do mercenário tagarela, Deadpool 2 segue o exemplo de seu antecessor para consolidar o sarcasmo, humor, extravagância, violência e insanidade da figura heróica não convencional da Marvel.

O primeiro longa de Deadpool, lançado em 2016, abriu o caminho para a reformulação na abordagem das adaptações cinematográficas de heróis. Com classificação para maior de 18 anos, piadas e sugestões sexuais, assim como a violência grotesca e humor negro, passaram a se tornar um recurso, e não um empecilho. Tal caminho foi seguido por Logan, de 2017, que botou Wolverine (Hugh Jackman) em uma história mais profunda do que a do mercenário interpretado por Ryan Reynolds, mas não menos feroz visualmente. Dois anos se passaram e o retorno do anti-herói chega para acentuar todos os traços que começaram a se formar com o primeiro filme da 20th Century Fox.

Assim como em 2016, Deadpool 2 traça um paralelo motivacional na vida de Wade Wilson (também conhecido como Deadpool) através de uma ameaça central e um conflito projetado em Vanessa (Morena Baccarin), interesse amoroso do anti-herói. Enquanto tenta proteger o jovem Russel (Julian Dennison) das mãos do mutante Cable (Josh Brolin), Deadpool intercala seu cotidiano “heróico” ao lado do seu grande amor, mas novamente esbarra em acontecimentos trágicos. O ritmo do roteiro e edição consegue balancear todas as vertentes e ramificações da história, sem se perder com ações e informações desnecessárias ao longo de suas quase duas horas de duração. No entanto, estabelecer novos fatos aos espectadores se torna incongruente, já que o filme se desconstrói a – praticamente – quase todos os passos que toma. São poucos os personagens inéditos que fazem a diferença na sequência, assim como são poucas as consequências de atos mais intensos.

Todo o material promocional do filme serviu para mostrar que, novamente, Deadpool se apresentaria como um excêntrico personagem que não mede esforços em soltar comentários esdrúxulos sempre que a oportunidade lhe é apresentada – algo consagrado no cerne do herói desde seu nascimento nos quadrinhos, em 1991. Se você achou que o primeiro longa um tanto quanto exagerado, saiba que a sequência acelera em direção a piadas ainda mais pesadas, afinal, a classificação etária e o próprio psique de Deadpool permitem isso. Limites? Não há limites. Há, sem dúvida, uma tentativa de mostrar o lado mais humano do protagonista, mas sem deixar a veia cômica e extravagante saltar quando o mercenário aparece na tela – e tal artifício funciona muito bem.

Podemos dizer que o filme foi, de certa forma, concebido através de dualidades: vida e morte; humor e seriedade; ação e reação; construção e desconstrução. Se de um lado temos o exagerado protagonista, do outro temos o mais sério e sombrio Cable. O mutante capaz de viajar no tempo serve como um pilar mais fúnebre e obscuro na sequência, além de acentuar a duplicidade mencionada. Interpretado pelo ator Josh Brolin, que também dá vida ao vilão Thanos no Universo Cinematográfico Marvel, Cable se destoa do humor proposto pelos roteiristas e diretor, mas também lhe é permitido momentos mais cômicos e leves, sem perder suas características fundamentais durante este processo. O mutante também serve para estabelecer novos recursos visuais e combates mais pesados visualmente. Enquanto Deadpool é mais leve e acrobático, Cable é mais rígido e vigoroso. Os opostos se encaixam como um imã não só psicológico, mas também visual.

As novidades não ficam só com Cable, já que vemos novos mutantes darem as caras em Deadpool 2. A formação do grupo X-Force formado pelo protagonista, Dominó (Zazie Beez), Zeitgeist (Bill Skarsgård), Bedlam (Terry Crews), Peter (Rob Delaney) e Shatterstar (Lewis Tan), é mais uma forma que o filme encontra para amplificar o universo do mercenário tagarela nas telonas. No entanto, a intensa dinâmica proposta somente dá espaço para que Dominó cresça e se estabeleça – o que não deixa de ser um fator positivo. Com a sorte como seu super-poder, a personagem de Zazie Beetz é um dos alicerces para o sucesso de Deadpool, mesmo que seu humor seja mais leve e diferente do extravagante protagonista. Em meio a tantas novidades, a sequência também aposta no retorno e intensificação de Colossus (Stefan Kapicic), Dopinder (Karan Soni) e Negasonic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand), personagens que marcaram presença no filme anterior, mas que não ganharam tanto destaque como na sequência.

O espírito cômico do filme vem das mais diferentes formas e se encaixa em todos os pontos do roteiro. Seja através de referências a outras obras da cultura pop em diálogos, nudez ou violência, o humor de Deadpool 2 é mais afiado do que seu antecessor e eleva o sucesso concebido em 2016. O grande triunfo do longa não fica somente para a história humanizada, mas também para os exageros – ou falta de. A quebra da quarta parede, recurso em que personagens estão conscientes de sua inserção e conversam com o público, não é tão recorrente e apresenta leveza em sua inconstância. Já estamos cientes de que o personagem pode conversar com o público e não precisamos ser lembrados disso a cada instante.

Deadpool 2 é um ótimo exemplo de um filme super-heróico que mistura humor negro e violência com coração, e mostra que filmes do gênero podem ser mais apelativos emocionalmente sem deixar exageros de lado. Ter um protagonista completamente insano e escrachado, além de inseri-lo nas mais bizarras situações, permite que diálogos e ações usufruam do não convencional para entreter. Há, no entanto, uma constante construção e descontrução de atos que tiram o peso de seu final, mas se você busca entretenimento através do excesso de piadas, violência e humor, saiba que Deadpool 2 é um tiro certo para risadas e diversão. Não há limites para a veia cômica do protagonista e outros personagens, e a sequência consegue amplificar o que havia estabelecido com o primeiro filme sem medo de tomar passos ainda mais absurdos para alegrar o público – além de guardar gratas surpresas. A produção da 20th Century Fox chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (17).

 

 

80%
80%
Muito Bom

Deadpool 2 (2018)
País: EUA | Classificação: 18 anos | Estreia: 17 de maio de 2018
Direção: David Leitch | Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick
Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Josh Brolin, Zazie Beetz, Brianna Hildebrand, Bill Skarsgård, T. J. Miller, Julian Dennison, Karan Soni

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Cofundador e editor-chefe do Duas Torres. Fascinado pela narrativa de J. R. R. Tolkien e pela evolução do entretenimento, encontra paz ao escrever sobre filmes, séries e games.

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