Cicatrizes de Guerra | Vingadores: Guerra Infinita (Com Spoilers)

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Antes de mais nada, se você ainda não viu o filme, corre lá na nossa crítica sem spoilers.

O grande Titã louco finalmente entrou em ação e sua busca pelas Joias do Infinito o levaram de encontro com os heróis apresentados em 10 anos de Universo Cinematográfico Marvel. Mas em Vingadores: Guerra Infinita, os personagens que encontramos não são os mesmos que conhecemos nos filmes anteriores, muitos carregam consigo o melhor e o pior de experiências passada e a batalha que irão travar aqui promete deixar cicatrizes mais profundas neles.

Atenção, spoilers a partir daqui.

Apesar de sabermos – como fãs e público – que toda e qualquer morte pode e deve ser revertida – para o bem da franquia e dos acionistas da Disney –, é impossível ignorar o trauma que a batalha contra Thanos trouxe para alguns de nossos personagens.

Não é segredo que Tony Stark é um dos personagens mais afetados pela presença do Titã Louco. Atormentado pelos acontecimentos de Os Vingadores, o personagem – que chegou a ter ataques de pânico – nunca deixou, de fato, seus medos para trás e muitas de suas ações – como a criação de Ultron e Visão e sua posição quanto ao Acordo de Sokovia – foram motivadas por seus medos e uma quase-obsessão com segurança. Aqui, além de finalmente enfrentar sua maldição, Stark se vê em outro dilema: sua mentoria com Peter Parker, o Homem-Aranha.

O deslumbrado garoto que entrou de cabeça nesse mundo através de Stark é também uma das maiores preocupações do bilionário. Em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, vemos o cuidado de Tony para com seu aprendiz, afinal, os perigos que o garoto corre são, indiretamente, responsabilidade dele. E ele não quer isso em sua consciência. Dito isso, temos uma noção do impacto emocional que é, para Tony, ver Peter morrendo em seus braços enquanto ele observa, impotente, aquilo que foi seu maior fracasso: não poder protegê-lo.

No filme, Stark e Parker dividem boa parte de suas cenas com Stephen Strange, personagem que vimos anteriormente em seu filme solo e em uma curta aparição em Thor: Ragnarok. É interessante notar que Stephen caminha em uma jornada diferente, de auto aceitação – ­o personagem não utiliza mais luvas para ocultar as cicatrizes de suas mãos – e em direção a tornar-se o Mago Supremo que conhecemos. Strange é também o personagem que carrega consigo a responsabilidade de sacrificar tudo para garantir que o futuro onde os heróis triunfam ocorra.

Dono de sua própria trilogia e marcando presença nos dois filmes anteriores da equipe, Thor é quem possui o maior destaque dentre os heróis aqui. Thor: Ragnarok foi o penúltimo filme antes de Guerra Infinita e o personagem demonstra um exímio amadurecimento aqui, não necessariamente em suas habilidades, mas ao deparar-se, pela primeira vez, sozinho. Suas perdas vão além de sua família, pois Thanos liquidou a maior parte de seu povo, incluindo seu meio irmão Loki.

Despido de seus antigos aliados ou armas, a jornada de vingança do deus do trovão torna-se uma das mais interessantes e puras do filme: nada como uma boa e velha retaliação. E se o personagem perecer em sua jornada, o que mais ele tem a perder? O Thor que se ergue na batalha final – e que veremos no próximo filme – é, definitivamente, um personagem novo e completamente fascinante de acompanhar, pois – é importante lembrar – sua vingança ainda não se concretizou.

Seu caminho acaba se entrelaçando com os Guardiões da Galáxia, personagens que, antes de tudo, já lidaram com suas perdas pessoais e agora só tem uns aos outros. Assim, é intrigante a forma como a equipe se divide aos poucos, com Rocket e Groot acompanhando Thor e o restante tentando deter Thanos, apenas para que, na sequência, o Titã Louco tome Gamora consigo e, eventualmente, a mate.

Posteriormente, vemos uma consequência deste ato refletir-se em Peter Quill e seu comportamento precipitado perante Thanos. O personagem sempre foi impulsivo e pela primeira vez isso traz um problema imediato, visto que havia uma chance de vencerem se ele tivesse maior maturidade emocional. Ao final, entretanto, o único da equipe a permanecer fora Rocket, cuja solidão e dificuldade de se relacionar já havia sido trabalhada em Guardiões da Galáxia Vol. 2, o que torna curiosa sua jornada no próximo Vingadores, pois veremos a “lebre” destituída de sua única família.

Ainda que o filme não dê grande atenção a isto, é bom ressaltar como os eventos de Capitão América: Guerra Civil mudaram a cabeça de Rhodes, o Máquina de Combate. Aqui, nos deparamos com o personagem voltando-se contra as autoridades e aliando-se aos heróis foragidos, visando o que está realmente em jogo.

O herói vai de encontro ao importante papel exercido por Wanda Maximoff e Visão, dois dos mais poderosos Vingadores e que aqui – finalmente – ganham novas camadas a serem trabalhadas no roteiro e, no caso dela, demonstra uma crível evolução de poderes – em tese, ilimitados – sendo uma das últimas a cair perante o vilão, mas não sem antes demonstrar uma força até então desconhecida ao contê-lo quando este já está em posse de cinco das seis Joias.

O roteiro dá bastante atenção para o relacionamento dos dois e suas motivações: Visão não teme morrer, desde que isso garanta a vitória, mas Wanda – que perdera tudo em Vingadores: Era de Ultron – não está disposta a perder novamente. Sua paixão é o que torna ainda mais emblemático o momento em que a personagem precisa colocar de lado sua necessidade para destruir a Joia – e seu amado – a fim de impedir Thanos.

O poético fim do casal, entretanto, dificilmente será definitivo e assumindo que ao menos um dos dois retorne – e provavelmente seja Wanda –, é de se imaginar seu esgotamento emocional, o que abre margem para vermos a Marvel adaptar ao cinema o elogiado arco Vingadores: A Queda.

Já vimos o rei de Wakanda lidando com seus conflituosos sentimentos em Capitão América: Guerra Civil e em Pantera Negra e aqui encontramos um T’Challa mais seguro de si, tanto como monarca quanto como guerreiro. O personagem integra a linha de frente do exercito Wakandano e, ainda que não tenha muito impacto na trama, acaba por ser um dos mortos com o estalar de dedos do Titã louco, tornando interessante conjecturar sobre o papel de Wakanda em Vingadores 4, uma vez destituída de seu pilar principal.

Natasha Romanoff possui uma entrada triunfal que serve de lembrete de seus talentos marciais que a colocam a altura de estar entre os Mais Poderosos da Terra. A personagem sempre demonstrou grande resiliência para com seus sentimentos, poucas vezes demonstrando alguma vulnerabilidade, mas mesmo ela demonstra uma ponta de alivio ao reencontrar Bruce Banner, quem não via desde o final de Vingadores: Era de Ultron. O senso de urgência da trama impede que vejamos mais do casal, mas abre espaço vermos Romanoff no ápice do sarcasmo ao peitar uma das generais de Thanos mais de uma vez.

E falando de Banner, o cientista – acostumado com traumas – e sua nervosa contraparte, Hulk, é um dos que mais sofre neste filme. No já mencionado extermínio dos Asgardianos promovido por Thanos, o gigante esmeralda toma uma surra, até então, inédita nos filmes, sendo derrotado facilmente pelo Titã Louco. A partir daí, vemos o equilíbrio das personas Hulk/Banner extremamente prejudicado, com Hulk amedrontado e Banner cada vez mais desesperado e recorrendo ao auxilio de uma Hulkbuster 2.0 para lutar na batalha final.

Como Banner e Romanoff permaneceram vivos ao final do filme, fica para Vingadores 4 a tarefa de desenvolver melhor a relação dos dois e trazer de volta o gigante esmeralda em toda sua raiva e força para – torçamos – um segundo round com Thanos.

Desde que conhecemos Nebulosa em Guardiões da Galáxia, nos deparamos com uma fria assassina que quer liquidar sua meia-irmã Gamora e seu pai adotivo, Thanos. Entretanto, posteriormente entendemos suas emoções, ao passo que a própria personagem muda de lado. Aqui, nos deparamos com Nebulosa sendo torturada por Thanos e, posteriormente, em batalha ao lado de Stark, Strange, Parker e parte dos Guardiões da Galáxia.

Porém sua vingança ganha novos contornos quando ela toma ciência do destino de Gamora e, principalmente, por ser uma das personagens que sobrevive ao final do filme. Resta aguardarmos para saber se sua vingança irá se concretizar, com o vilão caindo por suas mãos ou pelas de Thor.

Um dos personagens mais danificados no MCU é, sem dúvidas, Bucky Barnes, o Soldado Invernal. Longe de ser o jovem que conhecemos em Capitão América: O Primeiro Vingador, Barnes passou por muita coisa até ressurgir em Capitão América: O Soldado Invernal como um dos vilões. Enfim descobrimos que ele sofreu lavagem cerebral e mal controlava suas ações – com direito a um código que resetava sua mente –, mas aqui, Barnes surge finalmente curado, apenas para ter que lidar com um guaxinim que quer seu – novo – braço e, posteriormente, tornar-se uma das vítimas de Thanos.

Com isso, chegamos enfim a Steve Rogers. O – não mais – Capitão América, tal como o núcleo de Wakanda no geral, tem pouca significância em termos narrativos, mas ao final o vemos em uma posição semelhante a de Rocket e Thor: solidão. Seus amigos mais próximos morrem ao final do filme – além de Bucky, Sam Wilson também é uma das vítimas – e sua relação com Stark segue estremecida desde Capitão América: Guerra Civil, o que nos faz perguntar como Rogers reagirá em Vingadores 4. Será que ele persistirá obstinado ou, pela primeira vez, sua inquebrável determinação será estremecida?

Quem retorna, quem morre, quem vive?

É ingenuidade assumir que todas as mortes sofridas aqui – principalmente as do final – sejam permanentes. Mas é de se imaginar que Joe e Anthony Russo estejam prontos para surpreender o público, pois com certeza teremos alguns retornos, mas também novas mortes em Vingadores 4 – estas sim, definitivas.

Há infinitas teorias, possibilidades e conjecturas que possamos imaginar, mas a única certeza é aquela anunciada ao final da projeção: Thanos irá retornar.

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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", preferindo o termo "Filmmelier". Quer ser o Homem-Aranha quando crescer. Acha que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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