Um Lugar Silencioso – Crítica

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Originalidade não é o forte de Um Lugar Silencioso (A Quiet Place). Talvez, justamente por este ponto, seu diretor John Krasinski – que também co-roteiriza e protagoniza o filme – se esforce para compensar isso arquitetando uma meticulosa atmosfera de suspense que, mesmo remetendo a outros filmes recentes, funciona muito bem. Ao criar um ambiente onde a sobrevivência dos personagens depende de um silencio quase absoluto por parte destes, cria-se uma experiência sensorial que imerge o espectador na trama pouco após o início do filme.

A história contada aqui é simples, porém suficiente para servir de fio condutor para o espectador: após o surgimento de criaturas que atacam instintivamente, guiados por sua audição, uma família tenta sobreviver e, para isso, precisam evitar quaisquer barulhos que possam atrair os monstros. Após uma introdução inteligente, que deixa claro as “regras” para a sobrevivência e o perigo iminente diante de qualquer ruído, o filme avança para que passemos a acompanhar a família, mais preparada, mas diante de uma situação mais arriscada.

Embora atento aos detalhes – que funcionam para tornar toda a situação mais plausível possível –, não há em momento algum uma justificativa para o surgimento das criaturas. A informação em questão não faz falta, mas é interessante ressaltar o cuidado que Krasinski tem para tornar a trama mais próxima de um drama familiar do que um terror de fato. Assim, temos nas entrelinhas questões mais intimas dos personagens: a culpa da filha do casal, Regan (Millicent Simmonds) após um ocorrido, o medo crescente da mãe, Evelyn (Emily Blunt) e, claro, a preocupação do pai, Lee (o próprio Krasinski) em proteger a família.

Embora o elenco mirim surja apagado – mas devidamente competente em suas funções narrativas – a dupla principal (Krasinski e Blunt) está ótima. Restritos da fala durante boa parte do filme, uma vez que a família se comunica utilizando linguagem de sinais, o casal – marido e mulher na vida real – consegue demonstrar todo o companheirismo existente entre eles, mesmo diante do mundo pós-apocalíptico que os assola. O trabalho corporal e através das expressões também é importante para que o espectador entenda o que está se passando no intimo dos personagens e é algo que a dupla entrega de forma eficiente.

A atmosfera de suspense que o diretor cria também eleva a experiência. Não há exposição exagerada aqui, tudo surge quando deve surgir e até mesmo a aparência das criaturas é mantida em sigilo durante boa parte do filme – quando aparecem à luz do dia e com clareza, são sempre rápidas demais para que o espectador consiga formar uma aparência sólida – e o bom uso de câmera, com travellings lentos e ângulos certeiros – que escondem elementos específicos até o momento correto – valoriza o elenco e o espaço para criar a sensação de angústia que permanece com o público durante boa parte do filme.

Mesmo que a primeira metade abuse de jumpscares para alimentar o viés de terror, os sustos não chegam a incomodar o espectador, mas alimentam a sensação de perigo constante. Dessa forma, o trabalho de sonorização que trata de silenciar ou evidenciar sons ambientes, cria momentos angustiantes com simples passos, respiração, ou mesmo um inocente jogo de tabuleiro. Ainda há espaço para Emily Blunt brilhar ao protagonizar a virada para o ato final, que se apoia em decisões ousadas e até mesmo uma mudança brusca de tom, para encerrar sua história.

Com uma trama tão embasada no silêncio como essa, é inesperado que o maior problema do filme venha de sua trilha sonora. Inconveniente e exagerada, a trilha não consegue cumprir a função esperada e acaba criando um efeito reverso, quebrando a importante atmosfera de suspense que é tão bem trabalhada nos momentos silenciosos do filme. Provavelmente teria sido mais interessante abrir mão totalmente desse elemento, uma vez que o filme já parece completo no silêncio total.

John Krasinski bebe de várias fontes e mescla boas ideias, criando uma experiência envolvente e entrega um bom resultado. Não há dúvidas de que Um Lugar Silencioso cumpre sua proposta e pode ser visto como um eficiente suspense ou um drama familiar com toques de terror, que deve deixar seu espectador em estado permanente de tensão desde o momento em que as luzes do cinema se apagam até o instante que elas acendem novamente.

Confira o trailer legendado:

Avaliação Final

80%
80%
Muito bom

Um Lugar Silencioso (2018)
(A Quiet Place)
País: EUA | Classificação: 12 anos | Estreia: 05 de abril de 2018
Direção: John Krasinski | Roteiro: John Krasinski, Bryan Woods, Scott Beck
Elenco: John Krasinski, Emily Blunt, Noah Jupe, Millicent Simmonds, Cade Woodward

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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", preferindo o termo "Filmmelier". Quer ser o Homem-Aranha quando crescer. Acha que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, é da Grifinória e faz turismo na Terra Média.

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