O Sacrifício do Cervo Sagrado – Crítica

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O cinema de Yorgos Lanthimos está longe de ser algo acessível e confortável para o público. Ao contrário, seus filmes mais “populares” – Dente Canino e O Lagosta – são obras que abordam aspectos humanos de forma extremamente surrealista e, por sua vez, bastante reflexivas e exigindo mais atenção por parte do espectador. Seu novo trabalho, O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer) é o mais “pé-no-chão” dentre as obras citadas, porém ainda conta com sua devida dose de bizarrice.

Semelhante ao polêmico – e não menos conceitual – mãe! de Darren Aronofsky, Sacrifício traz uma visão “cotidiana” de uma mitologia – por falta de palavra melhor –, adaptando a peça Ifigénia em Áulide. Um breve resumo: durante a batalha de Tróia, a frota grega estava encalhada por vontade da deusa Artemísia, já que o líder grego Agamemnon a havia ofendido. Para se redimir – e permitir que a frota pudesse avançar –, a deusa impunha que ele sacrificasse sua filha Ifigénia, colocando-o em conflito. Embora seja realizado o sacrifício, o final da peça deixa uma incerteza no ar, pois um mensageiro informa à mãe de Ifigénia que um cervo fora sacrificado em seu lugar, daí o título do filme.

A obra usa apenas o “esqueleto” da tragédia grega. Nele, somos apresentados à Steven Murphy (Colin Farrell) e sua esposa Anna (Nicole Kidman), dois médicos – um cirurgião cardíaco e uma oftalmologista – e seus filhos, Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Em suas primeiras cenas, vemos a estranha relação de Steven e o jovem Martin (Barry Keoghan), algo que é brilhantemente explicado aos poucos, mas incomoda desde os primeiros minutos, principalmente devido a ótima atuação de Keoghan e o fato de não sabermos exatamente a origem daquela relação.

O cinema de Lanthimos, antes tão sustentado em críticas – Dente Canino e sua própria maneira de abordar o mito da caverna de Platão de uma forma extremista e, posteriormente, O Lagosta e a fantasiosa representação de relacionamentos amorosos em um futuro distópico –, aqui apoia-se apenas no jogo psicológico criado na relação entre Martin e Steve, que ganha contornos cada vez mais sombrios conforme o andamento da trama. O momento em que o diretor expõe o que há entre os dois é preciso e injeta o ritmo necessário para a trama, justamente quando o filme começa a tornar-se arrastado.

O modo como o diretor comanda seu elenco, extraindo ótimas atuações sem vida, é de se destacar. Farrell – que já trabalhara com o diretor em O Lagosta – entrega um personagem vazio e estranho, que parece nunca estar verdadeiramente confortável. Ainda que proferindo diálogos mecânicos e frios, Nicole Kidman é uma figura mais humana, reagindo à estranheza que ocorre ao seu redor, mas é Barry Keoghan como o complexo Martin que rouba a cena para si. Com uma atuação cheia de nuances, o garoto protagoniza os momentos mais bizarros e assustadores sem recorrer a excessos e sua postura quase imutável só torna mais desconfortável assisti-lo.

Lanthimos também cria momentos que lembram o cinema de Stanley Kubrick, com planos abertos e simétricos que valorizam elementos significativos nos cenários – por exemplo, o desenho do cervo na parede da lanchonete onde vemos Martin e Steven conversando pela primeira vez, mas que só é revelado após um preciso movimento de câmera – e também uma trilha sonora que permanece ausente em boa parte do tempo, mas surge com intensidade em momentos chave para criar a atmosfera perfeita.

Apesar de uma notável pressa em alguns momentos – onde a estranheza proposital dos diálogos dá lugar a um incomodo devido a exposição exagerada –, O Sacrifício do Cervo Sagrado se mostra o melhor trabalho de Lanthimos até aqui. Tecnicamente primoroso, se mostra um filme tão singular quanto suas obras anteriores, mas sem se perder na fantasia surrealista, ao contrário, sua cautelosa construção permite que o espectador se torne parte da fascinante loucura que ocorre de forma tão natural.

Confira o trailer legendado:

Avaliação Final

80%
80%
Muito bom

O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017)
(The Killing of a Sacred Deer)
País: EUA, Reino Unido, Irlanda | Classificação: 16 anos | Estreia: 08 de fevereiro de 2018
Direção: Yorgos Lanthimos | Roteiro: Yorgos Lanthimos, Efthymis Filippou
Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Barry Keoghan, Raffey Cassidy, Sunny Suljic, Alicia Silverstone

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    4.7

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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", preferindo o termo "Filmmelier". Quer ser o Homem-Aranha quando crescer. Acha que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, é da Grifinória e faz turismo na Terra Média.

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