Extraordinário – Crítica

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Uma das grandes surpresas de Extraordinário (Wonder) é o fato de que o filme não olha apenas o lado do protagonista Auggie (Jacob Tremblay), mas se encarrega de dar voz para aqueles que vivem à sua volta. Assim como ouvimos de uma das personagens, “Auggie é o sol e todos nós somos os planetas que orbitam à sua volta” e uma trama que poderia ficar ruim no cinema – adaptações de livros nunca são fáceis, principalmente pela diferença nas linguagens e pela dificuldade de encaixar um vasto conteúdo num curto espaço de tempo – consegue ser transposta de uma forma simples e de fácil consumo.

Auggie Pullman é um garoto que nasceu com uma deficiência facial, passando por 27 cirurgias plásticas e, pela primeira vez, irá estudar numa escola com outras crianças. Ao passo que mostra também o impacto dessa mudança em seus pais (Owen Wilson e Julia Roberts) e em sua irmã, Via (Izabela Vidovic), o filme conduz o espectador pela adaptação do garoto diante de um mundo novo onde ele precisará lidar com crianças que, nas palavras do garoto, são mais difíceis de lidar, pois não sabem esconder a estranheza que sentem ao conhece-lo.

O filme escolhe trabalhar o bullying – tema central do filme e que já foi abordado este ano de forma mais séria na série 13 Reasons Why – de forma leve, mas ainda tocante. É impossível não se afeiçoar pela sensibilidade do garoto e sua forma de ver o mundo, sabendo exatamente o que irá enfrentar. Outro fator muito bem utilizado para identificação do público mais jovem é sua paixão por Star Wars, o que permite o filme inserir ícones da franquia com os quais o público pode se relacionar mais facilmente. Dessa forma, Auggie conquista não só a atenção, mas a amizade do público.

Ao dar maior espaço aos personagens ao redor, o filme perde ritmo, tornando-se episódico – com direito à introdução de cada um deles, tal como um novo capítulo que folheamos ao ler um livro –, mas ganha profundidade. Mais do que coadjuvantes, cada um ali tem sua própria história e seus próprios dilemas, principalmente Via, que se sente isolada na própria família e tem uma relação mais forte com sua finada avó do que com os pais, permitindo uma história tão interessante para ela quanto para o protagonista.

As histórias paralelas de Miranda (Danielle Rose Russell) – melhor amiga de Via – e Jack Will (Noah Jupe) – primeiro amigo de Auggie na escola –, embora interessantes, agregam menos, pois fica a promessa de um arco narrativo mais firme. A introdução dos personagens vem com uma sugestão de consequências maiores, mas tudo parece resolvido de forma rápida demais, o que por sua vez também tira um pouco do peso do tema principal, que deveria ser o bullying.

Após o desenvolvimento na primeira metade do filme, fica a impressão que haverá um maior impacto aos atos dos personagens. Entretanto, tirando um deles, todos que fizeram algo minimamente condenável passam por um ou dois diálogos que representam uma redenção. Por mais belo que seja pensar em segundas chances, caberia um espaço para mostrar que ações – ou mesmo palavras – podem trazer feridas difíceis de se curar.

Nota-se que o elenco conseguiu encontrar bem o tom de seus personagens, Owen Wilson faz o pai divertido, mas apreensivo com o bem-estar do filho e Julia Roberts sabe mostrar a preocupação de mãe sem parecer forçada. Entretanto, o real brilho fica pelo trabalho dos mais novos, mas principalmente pela legítima atuação de Jacob Tremblay que consegue passar todos os sentimentos através da voz e dos olhos, novamente mostrando que tem um talento absurdo e mantendo-se como uma das maiores revelações recentes.

Com um protagonista que conquista o afeto do mais difícil espectador, Extraordinário se sobressai como uma boa adaptação de livro, ainda que sacrifique o ritmo do longa em prol de uma transposição mais fiel ao material de origem. A escolha de abordar um tema tão sério e importante de forma infantilizada não faz o filme ser menos tocante e mantém intacta a mensagem que quer passar ao espectador, que não deve se culpar se derramar algumas lágrimas ao final da sessão.

Confira o trailer legendado:

 

Avaliação Final

80%
80%
Muito bom

Extraordinário (2017)
(Wonder)
País: EUA | Classificação: 10 anos | Estreia: 7 de dezembro de 2017
Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris | Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco: Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson, Mandy Patinkin, Daveed Diggs, Izabela Vidovic, Noah Jupe, Danielle Rose Russell

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"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", preferindo o termo "Filmmelier". Sonha em ser o Homem-Aranha quando crescer. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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