Planeta dos Macacos: A Guerra – Coletiva de imprensa com Andy Serkis

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O ator Andy Serkis, que interpreta Caesar na franquia Planeta dos Macacos, esteve na terça-feira (01) em uma coletiva de imprensa com jornalistas em São Paulo.

A presença do ator faz parte da divulgação de Planeta dos Macacos: A Guerra, filme que encerra a trilogia iniciada em 2011 e aproveita os acertos dos filmes anteriores, adicionando novas camadas de complexidade e inteligência à saga – você pode ler nossa crítica do filme aqui.

Andy Serkis no set de filmagens de Planeta dos Macacos: A Guerra (via: 20th Century Fox)

Captura de movimentos:

Serkis ganhou destaque mundial ao interpretar Gollum/Sméagol na trilogia O Senhor dos Anéis, do diretor neozelandês Peter Jackson. Levar o personagem escrito por J. R. R. Tolkien às telonas só foi possível através da tecnologia de captura de movimentos, mesma tecnologia que permitiu dar vida a Caesar e outros símios do reboot de Planeta dos Macacos. “Acredito que a coisa mais importante que os atores compreendem quando começam a usar a tecnologia da captura de movimentos é de que ela é só isso: tecnologia. Não é uma forma de atuação, você não performa ou atua de formas diferentes do que faria se interpretasse um personagem vivo nas telonas. É claro que, se interpretar um macaco, terá que estudar e pesquisar o comportamento dos macacos: como eles se movem, como se comportam, como se comunicam. Mas é claro que estes macacos [do filme] não são simples macacos, eles são antropomórficos, evoluídos, foram transformados por uma droga.” Serkis também explicou como é a abordagem de outros atores que não possuem experiência sobre as capturas de movimento, dizendo que o estudo físico e comportamental sobre os animais é somente um dos passos para leva-los às telonas. “Quando Steve [Zahn, que interpreta o chimpanzé Bad Ape] se aproximou do papel, ele começou a pesquisar e observar macacos nos zoológicos, YouTube, mas a questão é: o que é o personagem? Quem é Bad Ape? Isso é atuar. Isso é fazer escolhas e ele escolheu interpretar um personagem que vive solitário nas montanhas e coleta coisas para combater a solidão, então há muita tristeza neste personagem. Essa é a importância do aspecto humano ao dar vida a esses personagens, afinal, a metáfora que usamos de símios é só para refletir a condição humana e poder olhar a nós mesmos de forma mais profunda e diferente.

Empatia, 50 anos de franquia e tempos atuais:

O ator define a franquia falando sobre empatia e a mensagem por trás de todos os filmes – incluindo o original de 1968. “O tema principal dos filmes da franquia [Planeta dos Macacos] é a empatia e o paralelo da situação onde nós, seres humanos, vivemos em um mundo em que perdemos a habilidade de sentir empatia por outra cultura, outra sociedade, pessoas diferentes, espécies diferentes. O que acontece se perdermos essa habilidade de nos colocar no lugar dos outros? É isso que todos os filmes abordam – desde Planeta dos Macacos de 1968 -, todos foram escritos com comentários sociais. Essa é a beleza desta metáfora, e pela qual sou grato em fazer parte desta franquia, porque você pode operar em um estágio global para uma ampla audiência mas, ainda assim, dizer algo incrivelmente importante, significativo, que conecte com o público de forma profunda. Esse balanço, acredito eu, é o que faz esses filmes reinarem por tanto tempo – são cinquenta anos -, é por isso que sempre voltam e porque se tornaram histórias clássicas. Ter alegorias que falam sobre condição humana é o que precisamos no mundo, neste momento.”

Traçando um paralelo entre tempos atuais e os personagens de Planeta dos Macacos: A Guerra, Serkis fala sobre as áreas cinzentas que Caesar precisou enfrentar. “Vivemos em tempos perigosos, confusos, e sabemos que a resposta humana a isso é se mover cada vez mais para perto de respostas simplistas para encontrar soluções mais fáceis. O mundo está sofrendo com lideranças simplistas, e o que acho muito bonito ao usar a metáfora com os símios é que o compasso moral dos personagens mudam, não há vilões, somente áreas cinzentas. Por mais que Caesar seja um personagem nobre, possui falhas. Embora seja um líder que busca por uma solução pacífica para o conflito entre humanos e macacos, ele está consumido por fúria e raiva, e está perdendo empatia.”

De O Senhor dos Anéis a Planeta dos Macacos:

O que tem sido incrível sobre a evolução da tecnologia de captura de movimentos é que, quando comecei a trabalhar em O Senhor dos Anéis, filmava com Elijah Wood e Sean Astin, que interpretaram Frodo e Samwise Gamgee, em locações e no set. Depois, eu precisava repetir esse processo fisicamente em um estúdio de captura de movimentos com câmeras de 360 graus e um traje com marcas. Eu podia ver Gollum ao vivo nas telas, então aprendi a ser a marionete e o marionetista deste personagem digital, mas depois você esquece isso. Assim que aprende a como criar o personagem, esquece sobre o objetivo estético do personagem e centra nas emoções interiores. Naqueles dias, não havia a habilidade de capturar expressões faciais, então os animadores tinham que copiar minhas expressões faciais que eram filmadas. A primeira vez que usamos captura facial foi quando Peter Jackson me chamou para fazer King Kong [lançado em 2005]. Tinha várias marcas no meu rosto que eram atribuídas a uma máscara digital no rosto de Kong, e se eu movesse meu rosto, o rosto de Kong também se movia.

Já em As Aventuras de Tintim: O Segredo o Licorne, o ator explica que a tecnologia com câmeras avançou a ponto de permitir que o ator se movesse livremente nos estúdios, mas a grande revolução aconteceu com O Planeta dos Macacos: A Origem: “Poder filmar captura de movimentos fora de um estúdio aconteceu em Planeta dos Macacos: A Origem, onde conseguimos levar todas as câmeras, tanto as de captura quanto as de filmagens, para filmar as performances dos atores em tempo real sem precisar repetir o processo em um estúdio de captura. Era direto, o que tornou o processo de filmagens igual ao de qualquer outro filme.” O ator também aponta para a evolução dos efeitos visuais da WETA Digital, empresa criada por Peter Jackson que ganhou diversos prêmios com a trilogia O Senhor dos Anéis. “Eles estão extremamente avançados quanto o fotorrealismo da textura de olhos e pêlos dos macacos, o que era muito difícil na época de Planeta dos Macacos: A Origem. Agora é mais fácil para eles honrarem as performances, emoções e escolhas dos atores. Tudo que você vê é criado pelo ator, mas a fidelidade dos efeitos visuais para essas performances está melhor do que jamais esteve.

O diretor Matt Reeves (direita) e Andy Serkis no set de filmagens (via: 20th Century Fox)

Sobre o diretor Matt Reeves

Serkis aproveitou para falar sobre o diretor do filme, Matt Reeves, que também irá dirigir The Batman. “Matt Reeves é um dos melhores diretores com quem já trabalhei, porque é ótimo em dirigir atores. O que mais o interessa são as performances, e um de seus maiores medos ao dirigir o primeiro filme era de que a tecnologia fosse interferir nas performances dos atores. Quando você para pensar nesses filmes de grande orçamento, vemos que são muitas pessoas envolvidas e há muita pressão, mas Matt foi extremamente claro sobre não querer colocar câmeras no set enquanto não ensaiássemos antes de todas as cenas, o que é muito raro nesses filmes de grande orçamento. Durante todo o tempo, todas as câmeras são geradas a partir do ponto de performance e pontos de vista: qual o ponto de vista do filme? Claramente a jornada de Caesar serve como os olhos do público, vemos o mundo através dos olhos de Caesar. Além de ser um ótimo diretor nos sets, ele é muito inteligente e usou a tecnologia de modo brilhante. No processo de pós-produção, quando a WETA apresentava as cenas com as faces dos atores, ele explicava o que estava acontecendo: ‘Nesta cena, Andy está muito nervoso, mas também está em conflito e triste”. Era um processo contínuo e uma mesma cena poderia ser repetida 160 vezes para chegarmos no que o ator havia feito.

Macacos que falam

Novos filmes não oferecem nenhuma novidade, tentam simular uma fórmula onde você, já no primeiro ato, entende o que vai acontecer no fim. Esse filme [Guerra] não é assim, acho justo dizer. Tudo pela grande mente de Matt Reeves, onde a história é atual, afeta o mundo emocionalmente, educa o público a ver outras pessoas sem julgamento. É algo poderoso no cinema, vem da ejeção de emoções que fluem da mente e fisionomia dos macacos, tem a necessidade de ser crível e urgente. No segundo filme, precisávamos encontrar um jeito para criar macacos que falassem de forma credível, porque tem todas as belas cenas onde eles se comunicam por sinais mas depois foi um desafio introduzir falas. Esse processo foi feito entendendo que eles não construiriam frases como nós humanos, como se Caesar estivesse buscando por palavras, procurando por maneiras de construir frases. Para isso, coloquei um protetor bucal para dificultar minha fala ao formar falas, para dar vida a uma nova linguagem. Já no começo de Planeta dos Macacos: Guerra, ele junta palavras de forma mais eficiente, assim como ele está emocionalmente mais evoluído.“, explicou o ator.

Dias bons e dias ruins no set de filmagens

Perguntado sobre os dias no set de filmagens, Serkis diz que foi difícil aguentar o inverno canadense, mas conhecer Bad Ape de Steve Zahn foi algo agradável. “Para mim, essa jornada foi uma experiência incrível e intensa. Filmamos durante cinco meses no inverno canadense e as filmagens a noite, vestindo o traje de captura de movimentos, não foram nada engraçadas. Me diverti muito quando conheci Bad Ape, porque Steve Zahn é um grande ator mas também é um grande comediante. É difícil manter uma cara série ao olhar para seus olhos por muito tempo. Poder sair do personagem e ficar histérico ao olhar para outros atores foram momentos deliciosos. Mas o resto dos outros dias foram sombrios para mim. Todas as outras cenas tinham muita intensidade, eram sombrias. Era exaustivo.

Reconhecimento

Até hoje, as grandes premiações do cinema ignoram as performances de atores que fazem capturas de movimento, e Andy Serkis, um dos expoentes do uso desta tecnologia, concorda que ainda há muito preconceito sobre o assunto. “Acho que é preconceito e ignorância. As pessoas se recusam a entender o que é essa tecnologia. Em termos do processo de atuação, não há diferença nenhuma em interpretar outro personagens, digo isso há anos. Essa recepção está mudando com jovens diretores, cinegrafistas, atores. Todos eles sabem o que é a captura de movimentos. Infelizmente, os membros mais velhos do corpo de premiações como BAFTA, Golden Globes, Oscar, se recusam a entender o que é isso. Basta assistir vídeos de bastidores para entender que isso não é sobre entrar em um traje e servir como referência para a criação dos personagens. Atores estão criando personagens nos sets com outros atores e diretores. Acho que não falaremos mais sobre isso em cinco anos, e espero que isso aconteça. É uma cegueira. Se eu interpretasse Caesar com maquiagem e uma roupa de macaco, diriam que estou atuando, é uma performance. Mas se uso o traje de captura e depois colocam a maquiagem digitalmente, ficariam ‘oh, oh, oh,'”, finalizou o ator imitando um macaco confuso.

Coletiva de imprensa com o ator Andy Serkis.

A idade de Caesar e um possível retorno à franquia

As mudanças de Caesar durante os filmes inclui mudanças físicas. O mais exaustivo foi interpretar sua versão jovem, mais ágil e cheio de energia. No segundo filme, Caesar já é um líder e pai, então queria dar mais peso ao personagem. Mudei a maneira como usava minhas mãos ao pegar coisas. No começo, fazia como se um jovem macaco estivesse tentando pegar algo, no segundo, era mais humano. Tudo sobre ele muda fisicamente de filme pra filme. Neste último, queria passar a sensação de que ele era um líder em tempos de guerra, com o peso do mundo nas costas, e, literalmente, vesti pesos incrivelmente pesados nos meus punhos e nas minhas pernas. Ele raramente caminha como um quadrúpede, só quando precisa escapar de algo em alta velocidade. Na maioria das vezes, sua fisicalidade é muito humana, não é só ficar com o corpo ereto, mas também onde ele está emocionalmente, já que nossa memória muscular está ligada às nossas emoções. Queria que ele passasse essa sensação de cansaço, mais humano.” Sobre um possível retorno à franquia para interpretar outro personagem, Serkis diz estar disponível. “Eu amo esse mundo, amo essa franquia, amo a metáfora com os macacos. Acho que, se for um diretor que eu amo e que me apresente uma história interessante, retornaria.

Evolução da mente

Sempre pensei no Caesar como um humano na pele de um macaco. Sempre com a sensação de que ele era um estranho. Mas há algo no jovem Caesar que se assemelha à uma criança superdotada, uma criança sábia além de seu tempo, que poderia brincar mas também fazer cálculos matemáticos. Dei esse intelecto a ele. No segundo filme, queria encontrar um exemplo de um líder que respeito, que fosse emblemático na forma como Caesar lideraria suas tropas de diferentes macacos. Nelson Mandela foi a inspiração para Planeta dos Macacos: O Confronto, com Caesar como o líder de um movimento que lutava para criar uma sociedade igualitária. A situação emocional de Caesar em Guerra, a maneira como pensa, como se comporta. Como isso me afetaria? Trouxe Caesar para próximo de mim, só assim poderia guiar o público e ser seu guia.

Guerra e futuro da captura de movimentos

Perguntando sobre a disputa entre filosofia e ação presente em Planeta dos Macacos: A Guerra, o ator diz que ambas precisavam estar no filme. “É um filme de guerra – uma guerra entre macacos e humanos – assim como qualquer outro filme do gênero. Qualquer grande filme de guerra é sobre como pessoas reagem à guerra. Acho que [Planeta dos Macacos: A Guerra] é mais sobre indivíduos que estão sobrevivendo à guerra do que um filme de guerra em si. Você sente a violência. Pessoas me dizem que acham difícil assistir as cenas em que macacos são baleados e mortos, e estamos tão dessensibilizados que ver um macaco quase morrer é tão difícil quanto ver uma pessoa ser morta, o que diz muito sobre nós. Mas Matt queria fazer o filme sob o ponto de vista de uma jornada mítica de Caesar, cimentando esse capítulo final. Também é uma história Bíblica, é uma história de Moisés, onde ele lidera seu povo para a terra prometida.” Sobre o futuro da tecnologia, Andy se diz otimista. “Algo interessante sobre essa tecnologia é que, no meio de tudo isso, é uma tecnologia transmídia. É a ferramenta mais legal para atores do século 21. Você pode atuar em um blockbuster, em um videogame, atuar em uma série de televisão. Na Imaginarium [Studios, empresa de captura de movimentos fundada pelo ator], começamos a fazer conteúdos para televisão com conteúdos VR [realidade virtual]. Também há MR [Mixed Reality, onde objetos físicos e reais co-existem e interagem em tempo real], e, no começo do ano, iniciamos a produção de uma peça no Reino Unido onde, pela primeira vez, vimos avatares voando e se transformando em diferentes personagens através de um ator usando o traje de captura de movimentos. Em quinze anos, no ponto de vista cinematográfico, veremos mais formas de imersão cinemática. Não será só assistir telas de cinema passivamente, será algo mais como games, onde você será o personagem no filme.

Experiência como diretor

Serkis finalizou a coletiva falando sobre seus dois novos projetos como diretor: Jungle Book e Breathe. “Anos atrás, queria me tornar um diretor, e fui muito afortunado em poder trabalhar com essa tecnologia, porque pude viver os dois lados e ver efeitos visuais se desenvolverem, como animações funcionam, como dar vida à performances. Peter Jackson sempre foi meu grande mentor, me pediu para dirigir o segundo filme da trilogia O Hobbit, que me deu uma experiência incrível. Eu sempre quis dirigir filmes. Agora, com a Imaginarium, temos um filme em pós-produção e outro com lançamento marcado. Estou muito animado com Jungle Book [adaptação de O Livro da Selva], que sai no ano que vem. Se você acha difícil colocar o rosto de um ator na fisionomia de um macaco, tente fazer isso com uma cobra, uma pantera, um tigre, uma hiena, um lobo. Será muito interessante, estamos trabalhando com um elenco incrível. É extraordinário ver o rosto de Christian Bale na face da pantera Baguera. Rohan Chand, que interpreta Mogli, é um jovem ator extraordinário. É bem diferente da versão da Disney. É mais próximo do tom do livro de Rudyard Kipling, voltado para audiências mais jovens. Meu outro filme, que sai em outubro, se chama Breathe, e é uma história pessoal sobre os pais de meu amigo negócios Jonathan Cavendish: Robin e Diana Cavendish. Robin era um jovem atlético que contraiu poliomielite nos anos 50 após iniciar uma nova vida na África com sua mulher Diana, que estava grávida. Naqueles dias, a expectativa de vida de alguém com poliomielite era zero, então todos esperavam que ele morresse, mas ele não morreu. O filme é sobre sua escolha de sair do hospital, o que era uma impossibilidade naqueles dias. É sobre uma pessoa que vive fora do sistema hospitalar com aquele nível de incapacidade. Uma história de amor extraordinária estrelada por Andrew Garfield e Claire Foy.”

Dirigido por Matt Reeves, o filme também conta com Woody Harrelson (Coronel), Judy Greer (Cornelia), Karin Konoval (Maurice), Amiah Miller (Nova) e Terry Notary (Rocket) no elenco.

Planeta dos Macacos: A Guerra chega aos cinemas brasileiros no dia 03 de agosto de 2017.

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Fascinado pela narrativa de J. R. R. Tolkien e pela evolução do entretenimento, encontra paz ao escrever sobre filmes, séries e games.

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