Journey – Compartilhando a solidão

0

Desenvolvido pela Thatgamecompany, Journey se manifesta como uma experiência que se sustenta em descobertas e cooperação ao delinear profundas emoções através de sua jornada misteriosa.

O início:

No alto de uma colina se encontra uma figura encapuzada. No horizonte, um deserto, ruínas e, mais adiante, uma montanha de gelo que despacha um constante feixe de luz. Lançado em 2012 para o Playstation 3, e em 2013 para o Playstation 4, Journey te coloca em uma odisseia inundada de mistérios, descobertas e solidão. Sem se preocupar em abastecer jogadores com informações sobre a trama em seus estágios iniciais, caímos numa incógnita aventura criada pela desenvolvedora independente Thatgamecompany, que proporciona momentos íntimos enquanto exploramos seus vastos e dinâmicos ambientes. Seus primeiros minutos são necessários para lecionar movimentos e ações aos jogadores, e nos leva à análise de que a missão principal não é somente o destino final, mas também, refletir e compreender sobre o que se passou neste mundo, quem somos, e o que encontraremos ao desembarcar no fim de nossa aventura. Somos providos de simples habilidades que podem ser combinadas: um salto pode se tornar um breve vôo. Liberar uma curta descarga de energia, que emite um distinto som, pode ativar painéis. Assim como engajar com criaturas feitas de seda para restaurar o cachecol do personagem, um símbolo de nossa força.

Curiosidade:

O ambiente insólito se apresenta como o grande inibidor de nosso sucesso, e cria a necessidade de explorar todos os cantos de seu ecossistema limitado para decifrar e ultrapassar os obstáculos inseridos. Contraditoriamente, o próprio ambiente desértico faz as justas de um guia, mostrando rotas nem sempre convencionais que devemos atravessar ao ilumina-las com feixes de luz, ou ao construir trajetos com lápides e blocos das ruínas de um povo que ali prosperou. A narrativa exerce seu papel de forma incomum. Sem textos ou falas, o game simplesmente desprende sua história através de símbolos, e, pouco a pouco, deciframos seus códigos. Pela falta de informação inicial, Journey consegue despertar um dos mais intensos instintos do ser humano: curiosidade. É a curiosidade que nos dá forças para iniciar essa missão, e é ela que nos move em direção ao final.

Compartilhando solidão:

Sozinhos, caminhamos sob a areia e respiramos o passado daquele lugar, e a solidão começa a nos engolir pouco a pouco, até que um ser misterioso, igualmente encapuzado como nosso protagonista, aparece. Não há a possibilidade de comunicação ou troca de informações, só nos é permitido seguir o mesmo caminho. A única forma de interação com o outro jogador é a habilidade dos protagonistas que os permitem ativar painéis ou criaturas, liberando um distinto som causador de estranheza e inquietação durante o jogo, mas a curiosidade despertada para decifrar o mito de Journey sempre retorna para nos empurrar em direção à conclusão. Ao solucionar seus estágios, desenterramos a história do game, que discorre através de novos símbolos proféticos manifestados por figuras divinas de mantas brancas.

Ferozes desafios:

Progressivamente, novos desafios surgem, como sentinelas de pedras ou os gélidos ventos de uma montanha coberta por neve, exigindo desconfiança, inéditas interpretações e ações sobre o ambiente e os recursos estáticos que ele oferece, como esconder entre pedras e paredes. Mesmo com a inserção de novos desafios, o game compensa jogadores ao aumentar seu cachecol, automaticamente aumentando sua energia. Planamos por mais tempo, resistimos por mais tempo. E, o que antes era uma jornada de autodescobrimento e solidão, se torna uma aventura cooperativa sentimental. Enfrentar a ferocidade dos desafios de Journey em parceria é o que torna o game uma aventura rara. Em seus momentos mais desesperadores, o inóspito tenta nos ingerir e impedir nossos avanços, mas, lentamente, descobrimos que saltar e planar se convertem em formas de expressão, tornando possível ensinar e desmistificar os desafiadores enigmas implementados aos jogadores e parceiros de viagem. O sucesso depende desta troca entre jogadores, que terminam a peregrinação de mãos dadas enquanto a luz da montanha os cobrem. O laranja desértico transmuta-se para o pálido gelo que se apresentava distante no início do game, mas abre mão do frio para nos encher de vida e calor em seu momento final, nos lançando às estrelas.

Conclusão:

Mesmo mecanicamente simples, Journey consegue ser uma obra profunda e contemplativa que estimula a curiosidade, compaixão, comunicação e a necessidade de descoberta. Compartilhar a aventura e a poética dos ambientes com um jogador desconhecido aguça os mais intensos sentimentos sociais, tudo isso permitido através de sua narrativa misteriosa e emotiva. A maior recompensa do jogo aparece na conclusão, quando todas as dúvidas são sanadas.

 

About Author

Fascinado pela narrativa de J. R. R. Tolkien e pela evolução do entretenimento, encontra paz ao escrever sobre filmes, séries e games.

Deixe o seu comentário